sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Arte Urbana - 1

               Esta fotografia foi tirada no centro histórico de Amsterdam. Muito legal a brincadeira feita em uma das placas da cidade. Sem danificar o patrimônio público o artista anônimo tira proveito da comunicação visual de massa e particulariza de forma lúdica e inteligente um equipamento urbano. Com a única pretensão de ser engraçada e fazer os outros felizes a instalação não é permanente, mas a idéia é forte o bastante para ser reproduzida em outros locais e por quem quer que seja.


               É importante entender que sob a ótica dos relacionamentos humanos a cidade é um organismo vivo e pulsante e que tanto seu mobiliário, seu equipamento, suas obras de arte, como sua configuração física são alvos da manifestação cultural de seus habitantes. Essa comunicação ou qualquer outro tipo de manifestação pode e deve ser exercida pelo cidadão, desde que não cause dano, prejuízo ou constrangimento ao patrimônio público ou privado e aos outros usuários, eventuais ou não.

               É salutar e enriquecedor que o indivíduo se aproprie da idéia de participação e convívio com o todo. A troca de experiências de vida é sempre bem vinda.



               A arte acaba valorizando coisas depredadas, envelhecidas ou em desuso. Isso acontece na maioria das vezes, sendo na verdade, o principal objetivo. Aquilo que era ruim ou estava em péssimo estado de conservação passa a ter valor, como no caso da grade amassada acima, que depois da inserção da figura amarela em movimento (cujo golpe de arte marcial brinca com a avaria), assumiu um novo status.
                Objetos mal colocados que causam distúrbio na paisagem também criam ótimas oportunidades para uma abordagem mais cômica. Note que, o que seria uma coisa feia, passa a ser uma Obra de Arte Pop, quando uma bem humorada intervenção artística tira proveito da infeliz instalação de antenas parabólicas. Mas não é para qualquer um! É lógico que para isso acontecer tem que haver um competente artista por trás, cujo "feeling" possa extrair do caus inspiração para o belo. Bons olhos e muita criatividade transformam a cena urbana.   


Abaixo uma brincadeira simples.



             Outro tipo de manifestação artística que cada vez mais invade as ruas das cidades ao redor do mundo é o grafite. Na maioria das vezes muito colorido e alegre tem a capacidade de humanizar áreas inóspitas e degradadas ou valorizar áreas bem planejadas e saneadas urbanisticamente. Aqui dois exemplos bem interessantes de arte das ruas. Acima um bueiro ganha vida e humor e abaixo uma imagem pintada em uma parede de um hotel conhecido de Boston. Essa figura dos dois garotos foi feita pelos irmãos gêmeos brasileiros. (ver a grande assinatura em negras letras garrafais) 




A seguir, dos mesmos artistas brasileiros, um painel no MaM de São Paulo


Pormenor:


Abaixo em uma das ruas do bairro boêmio de Bruxelas. Painel com desenho do Tin-Tin.


          Uma boa ideia pode surgir a qualquer momento e em qualquer lugar. Um bom exemplo disso é essa arte feita em um muro, tirando proveiro da vegetação que cai. Uma boa sacada que já está bastante difundida mas, que sempre resulta em um belo efeito plástico. Assim como o cabelo a folhagem cresce e precisa ser aparada, podendo criar novas formas para a moldura do rosto. 


          A criatividade e senso estético não possuem limites nem algemas. Vale tudo em nome da liberdade de expressão e da licença poética. Cada um manifesta seu desejo e suas preocupações na medida de sua conveniência e de seu agrado. Desta forma muitos painéis deixam de ser meramente obras de arte e passam a funcionar como meio de comunicação em massa. Quando assumem essa primeira função correm o risco de perder força como elemento embelezador do meio e na maioria das vezes colaboram com o caos urbano. Como no caso dessa imagem abaixo em uma das ladeiras de Lisboa.


               As próximas quatro fotografias foram tiradas nas ruas da área central de Glasgow. Essa cidade me encantou por vários motivos mas, seus painéis de altíssimo valor artístico, foram uma grata surpresa e roubaram boa parte do meu tempo. De todos os tamanhos e com os mais variados temas (que na maioria das vezes muito alegres e coloridos, fazem um contraponto ao clima severo e à arquitetura clássica de suas ruas mais antigas), dinamizam o tecido urbano e dotam o espaço aberto de cenas inusitadas e mensagens eficazes.






                    Já em Belfast, quase sempre os painéis encontrados nas ruas (principalmente nos subúrbios) carregam uma mensagem política motivada por sua recente história de conflitos. Mesmo assim não economizam nas cores e na variedade de seus temas.





               As fotos que seguem abaixo foram tiradas no bairro londrino de Shoereditch, que desponta na atualidade como um dos bairros mais antenados da capital londrina. Repleto de boas opções de comércio, com cafés, bares, pubs e charmosas boutiques, além das já famosas lojas de design e decoração, oferece a mais cool das feiras livres da cidade. O bairro não é nada bonito mas é bastante atraente em razão de sua pulsante veia artística. Diversos painéis decoram suas ruas estampando desde prosaicos muros até fachadas inteiras.
                      Os temas? Sem restrições! Sempre muito originais! 
                      O estilo? TODOS!


Acima o original Octophant e abaixo uma fachada com arte moderna.











Ainda em Londres, mas em outra região:


          Outra forma de enriquecer os espaços da cidade com bom humor é tirar partido de grupos escultóricos que possam interagir com a pessoa. Aqui segue como exemplo estátuas de animais, que fazem referência à uma fábula infantil, colocados em praça pública e que além de enfeitar servem de bancos e ou apoios para quem passa pelo centro de Boston. De linhas orgânicas, permitem que o corpo ache sua posição mais confortável, compatível com a idade e demais características físicas do indivíduo.



Figuras simpáticas e fonte de cultura. Qualquer coisa que desperte a curiosidade e leve ao conhecimento é mais que bem vinda é digna de louvor.


Resistentes ao atrito, ficam ainda mais bonitos com o polimento feito pelo simples ato de neles sentar!


Outra coisa interessante é que não depositam a água da chuva e sempre ficam limpos! Bancos autolimpantes!


             Já na fotografia abaixo, tirada na cidade italiana de Como, esta escultura muito próxima ao pedestre, enfeita e permite que as pessoas interajam com elemento decorativo. Nesse caso, duvido que tenha sido pensada para servir de assento, entretanto, permite que o turista se aproprie (em poucos segundos) do espaço e tire uma fotografia divertida e inesquecível.


             Outra estátua na qual a pessoa interage é esse macaquinho na ponte de Hidelberg, Alemanha. O Brückenaffe. A figura do primata remonta aos tempos antigos da própria ponte, que possuía em uma de suas torres a figura de outro macaco, perdida com o tempo em uma das várias avarias que a ponte sofreu em toda a sua história. O macaco que resiste hoje é obra do escultor natural de Kaiserslautern, Gernot Rumpf. Nela é possível introduzir a própria cabeça na do animal como se fosse uma espécie de elmo. Essa possibilidade é vista pelos próprios moradores como um exercício cívico e releitura de uma página da própria história e para os menos informados turistas, uma simpática oportunidade de ter uma foto diferente, divertida e original. É inevitável! Depois vem aquela velha e já aborrecida lorota de ter que polir parte da estátua para voltar à cidade, ganhar inteligência,  ficar mais rico, conseguir outro amor, manter-se jovem, etc, etc, etc...


Já em Frankfurt a estátua do Urso e do Touro. 


               Feitas e colocadas na praça seca para enfeitar! Difícil seu uso para sentar e descansar. Sua presença garante apenas alegria e descontração ao espaço urbano e a exemplo da estátua novaiorquina da Wall Street, leva para as ruas a dupla que simboliza a Bolsa de valores local. Vamos polir o focinho do urso! Se for especulador do mercado de ações, até vale a pena! Folclore... também faz parte! (risos)


               Ainda versando sobre grupos escultóricos, abaixo na cidade belga de Namur, uma simpática e bem humorada dupla de personagens de cartoon animam a cena urbana. Com muita tradição no país, as tirinhas de desenhos animados impressas em jornais, revistas ou livros figuram entre um dos maiores orgulhos da nação. Essa descontraída dupla de bronze é a prova disso. Muito importante o salto evolutivo dado ao recurso da estatuária pública que deixa de retratar e homenagear apenas os seus heróis e figuras célebres, com eventuais referências à importantes acidentes geográficos e fatos históricos, para brincar e dar corpo às mais diversas manifestações culturais. 

              
                Em um canal, da também belga cidade de Gent, encontrei essa placa boiando com muita presença de espírito. O texto fala do aquecimento global e da necessidade de se preocupar com suas conseqüências. Divertidíssima passa seu recado de uma forma leve e muito eficiente. Inteligência na forma de comunicar-se e humor a serviço da conscientização. 


               Em Bogotá, um velho de chapéu coco, cavanhaque e bengala, lendo seu romance na platibanda de uma casa de esquina. Local mais que inesperado para fixar um elemento escultórico, porém de uma surpresa e um efeito inigualáveis! Recortado de uma placa de metal e pintado inteiramente de preto, ao mesmo tempo que cria uma sombra no céu, projeta sua própria sombra sobre a rua em um tamanho avassalador! O grande coração perfurado no meio de seu peito de ferro, aquece a alma do observador e pinta o solo com o mais forte símbolo da cultura humana! Ricas mensagens contidas nessa figura: dela podemos extrair o amor pelas letras, o respeito pelos mais velhos, a importância do conhecimento e assim por diante! Bárbara a mensagem proveniente de uma solução tão simples. 


               O uso de cores vibrantes é sempre considerado perigoso e acarreta muita preocupação. Justo por isso é quase sempre evitado dando lugar ao tradicional e pálido esquema cromático convencional. Acontece que o medo de ousar ou mesmo de propor coisas mais descontraídas acaba engessando a criatividade e tornando o espaço de convivência chato e monótono. Um exemplo do que se pode fazer para colorir um pouco o dia-a-dia é essa faixa de segurança que reproduz um arco íris. É certo que se todas as faixas fossem assim seria um exagero, concordo! Mas aqui ela funciona como material de propaganda para a ideia de igualdade entre gêneros, tendo portanto, data para ser retirada e dar lugar ao desenho zebrado tradicional. Dessa forma atinge seu objetivo alegrando o cotidiano e mandando sua mensagem sem comprometer a segurança do pedestre.


               Muitas cores também nessa obra em metal recortado e pintado do artista David Kracov nas ruas de Nova Iorque. 



               A seguir duas fotos do vão público, que antecede a entrada principal, do Pavilhão do Conhecimento no Parque das Nações em Lisboa, Portugal. Concebido originalmente para a Expo 98 como Pavilhão do Conhecimento dos Mares, foi transformado após o encerramento da feira mundial em um museu de ciência e tecnologia.


               De uma arquitetura muito pura que exibe linhas simples, vãos muito grandes e superfícies muito claras o ambiente construído assume um ar bastante fresco e leve. Esse primeiro espaço, com medidas muito generosas e fronteira bem permeável, ganha maior amplidão ao se comunicar de forma franca com o exterior, permitindo uma quase que total invasão de luz, som, cheiros e de vento. Na verdade esta linguagem rica em planos e formas segue por todo exterior do prédio que exibe volumes (sempre brancos) bem destacados e bem iluminados. Internamente ele funciona na maioria das vezes de forma inversa, mas nesse seu foyer semi-público a comunicação entre público e privado é total.

               O mais legal é que a linguagem que no "macro" forma o prédio, no "micro" produz seu mobiliário. E assim procedendo, a equipe de projetistas traz para a escultura e banquinhos de barquinho de papel, a cor e as formas do conjunto arquitetônico. Essa forma de "barquinhos de gazeta" é muito apropriada para o tema inicial do pavilhão, que a priori compunha o conjunto da Expo portuguesa localizada às margens do Tejo e mais ainda para o atual museu de tecnologia e ciência com foco ao ensino e formação de crianças, jovens e adultos.

               Não há quem não fique encantado com a simplicidade da forma que guarda uma complexidade de informações, símbolos e sentimentos! Adoro filosofar sobre esse tipo de coisa (risos)! 


               O bom humor passa pelo lúdico e pelo simples. O desenho dos banquinhos é bárbaro e muito eficaz: podem ser colocados tanto aleatoriamente como de forma ordenada, resultando sempre em um belo conjunto. Sua forma também é muito confortável e permite sentar de qualquer lado... uma, duas ou mais pessoas. Isoladamente funciona muito bem e em conjunto funciona ainda melhor.

                A escultura do barco maior (na qual apareço encostado) com formato bastante realista é o máximo! Traz consigo a simbologia do jornal que transmite conhecimento e populariza a cultura com a brincadeira infantil de construir e transformar uma folha de papel em um brinquedo. O barquinho, finalmente, alia a mensagem do conhecimento em transformação com o maior símbolo do Portugal Histórico. 


Jeff Koons no Whitney Museum of American Art:


              Talvez o mais valorizado artista plástico vivo da atualidade, Jeff Koons é mesmo controverso e sua mostra de 2014 na cidade de Nova Iorque prova isso. Nas fotos algumas esculturas gigantes e muito conhecidas pelo público em geral. A inovação e o bom humor são dão o tom à toda a sua arte exposta nos salões do museu americano.



             Koons atingiu notoriedade depois de se casar com a ítalo-húngara atriz pornô, cantora, escritora, política e tudo o mais... Cicciolina. Mas seu casamento foi só o trampolim para a fama. Conhecidíssimo por seu cachorrinho de flores colocado em frente da principal fachada do museu Guggenheim de Bilbao e por seus quadros eróticos que tem a si e sua ex-mulher como protagonistas e exibicionistas confessos, Jeff atingiu a categoria de ídolo pop e queridinho dos galeristas mais importantes do planeta. Suas obras atingiram cifras inimagináveis e muitos de seus exemplares fazem parte das mais importantes coleções públicas e privadas do mundo das artes.



               Outra forma bastante interessante de arte nas ruas, mas com um caráter bem temporal é a escultura de areia. Estas duas abaixo eu fotografei no Castelo de Dublim. Nota para as criatividade e precisão técnica do artista.


A caveira formada por nus femininos é um exercício peculiar...
paradoxo entre a vida e a morte: interessante.




Perfeição de formas e escalas...


          Mosaicos também são formas de arte muito potentes. Tanto os tradicionais de pequenas peças  multicoloridas esquadrejadas como os de cacos de cerâmica ou vidro. Podem aparecer em pisos, paredes ou revestido esculturas e elementos arquitetônicos. 


O Big Fish de Belfast




Uma fonte-escultura em Los Ângeles


             Um dos mais belos mosaicos que encontrei em minhas viagens foi o que mostro abaixo. Localizado no centro financeiro da cidade de Chicago. Leva a assinatura de ninguém menos que Marc Chagal.


               Forrando um monolito retangular de vinte e um metros de comprimento por quatro metros e meio de altura e três metros de largura, o painel representa as quatro estações do ano.




Assinatura do autor e data: 1972.






             Também em Chicago essas esculturas, que além de terem um formato muito interessante, fazem uso das cores fortes e marcantes. As cores ampliam as possibilidades e dão muita personalidade à obra além de criarem pontos focais muito potentes. 



Ainda em Chicago e utilizando o recurso da cor, temos o famoso Flamingo de Alexander Calder.


Continuando pelas ruas de Chicago nos deparamos com Pablo Picasso e Juan Miró!


            Nessa escultura de Picasso que representa um cavalo, o mais interessante é o fato de permitir uma interatividade com o pedestre maior que o usual. Sem nenhum obstáculo, atrai as pessoas e principalmente as crianças que desfrutam boas horas escorregando em sua base inclinada e lisa. Subir, escorregar ou simplesmente deitar ou sentar para um breve descanso, torna o objeto mais atraente e simpático. Nesse caso desmonta a áura de celebridade e desfaz a ideia de obra de arte intocável. 



Miró: pontos coloridos sobre base de concreto cinza. Linhas espanholas na fria cidade do norte.



quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Pisa


               É certo que a cidade portuária de Pisa, terra natal de Galileo Galilei, é muito mais que apenas a torre inclinada. Mas para não fugir à tradição vou começar a falar do seu principal cartão postal e do magnífico conjunto arquitetônico a que pertence.
               O conjunto é o mais famoso representante do estilo Românico na Itália e certamente o mais conhecido do mundo. Infelizmente graças apenas à inclinação da torre. Esse fenômeno da construção civil, que parece desafiar as leis da gravidade, acaba por subestimar por completo a importância e qualidade da arquitetura exibida e financiada pelo dinheiro da então toda poderosa cidade de Pisa.
               É formado por quatro edifícios dispostos em uma área aberta e gramada, conhecida por Piazza Del Duomo ou Campo Dei Miracoli. Os três mais importantes são a igreja ou Duomo (1063-1350), o Batistério (1153-1265) e o Campanário (1174-1271). Este trio de edifícios é formalmente unido pelo desenho repetido e ritmado de suas arcadas sustentadas por uma delgada colunata, além da uniformidade do material empregado: mármore branco com detalhes em mármores acinzentados. Existe ainda um quarto (mais discreto) edifício que abriga o cemitério conhecido como Camposanto de Pisa.  
                Diferentemente de outros países europeus, como a Alemanha, por exemplo, que unem em uma mesma edificação todos os componentes das tradições e cultos religiosos, a Itália tende a separá-los em diversas estruturas. Pisa é o exemplo mais claro e emblemático desse jeito italiano de construir na época da Alta Idade Média. O típico traçado italiano de um conjunto arquitetônico sacro desse período é de uma série de construções independentes entre si. Temos então a separação das funções em casas distintas: surge a igreja dominando o cenário ao centro do partido e os corpos do batistério e do campanário dispostos cada qual em uma das pontas do templo.
              O Batistério de Pisa é levantado a partir de uma planta concêntrica e fica bem na frente da igreja com sua porta alinhada com a porta central do edifício maior. Já a torre dos sinos é levemente deslocada para uma das laterais do Duomo que se revela muito característico.
               Na igreja prevalecem as formas simples e a fachada com empena triangular ressaltando o simples telhado de duas águas, muito mais alto que os dois outros telhados laterais, abusa da reflexão da luz sobre suas paredes de mármore branco. 

               Acima uma visão da fachada oeste da catedral tendo a torre sineira inclinada ao fundo. A fachada, muito típica do Românico Italiano é totalmente chapada e revela as mudanças de níveis do volume edificado e ressalta a inclinação das águas dos dois telhados laterais e do telhado principal da nave. O tratamento decorativo dado para esta fachada baseia-se nos quatro níveis de colunatas justapostos e sobrepostos acima da sutil arcada da faixa inferior, mais alta e dotada de três portas. Estas colunas inventam um rendilhado que acaba por abusar do efeito de luz e sombra, criando uma segunda pele que confere ao edifício uma leveza que contrapõe a técnica construtiva dos séculos onze e doze. Esse padrão agradou tanto que passou a ser imitado em toda a Europa.


               As altas pilastras encimadas pelos grandes arcos plenos da primeira seção da fachada (mais próxima ao chão), não são meramente decorativas e expõem sem mistérios a estrutura do prédio. São, portanto, elementos estruturas característicos desse estilo. Esse jogo de arcos e pilares tornou desnecessária uma parede compacta e maciça para absorver uma carga constante. Assim foi possível a utilização de tijolos para criar a estrutura portante de alvenaria: recurso muito difundido até o fim do período gótico.
               De forma distinta as loggias superiores assumem uma função mais decorativa que estrutural. Essas três galerias de colunas, no entanto, ajudam a diminuir a grossura da parede externa dessa fachada e consequentemente seu peso. Suas pequeninas e escassas janelas seguem os ditames da ideologia e da técnica da época: interiores propositadamente pouco iluminados. A idéia da classe eclesiástica era prover o recinto com uma luz discreta e bastante difusa para auxiliar no culto e na catequese. Outro fator determinante para esse estilo arquitetônico era de caráter bélico: herdada das épocas anteriores, a idéia de um prédio com paredes largas e janelas pequenas levava e crer que cumpria com as exigências de segurança e resistência à ação de possíveis inimigos. Nessa época a Itália não era unificada e as autônomas cidades de seu território atual disputavam entre si pelo domínio de suas regiões. Pisa em particular tinha como rivais as cidades de Luca e de Florença.


               Acima um pormenor dos desenhos formados pelos painéis de mármore de diversas tonalidades. Estes trabalhos feitos de mármore dispostos de forma geométrica, que tiram partido dos baixos relevos, completam a decoração característica da fachada, também presente em outras estruturas sacras do mesmo período espalhadas pela cidade. No detalhe à direita, vemos uma coluna com decoração mais elaborada sustentando uma figura animal que olha em direção ao chão com leve inclinação da cabeça para o lado. Esta coluna é uma do par que emoldura a porta de entrada principal do templo, portanto, com hierarquia superior às demais, motivo pelo qual ostenta elaborada decoração. É possível perceber também, que sobre esta porta existe um painel policromado, executado sobre a superfície terminada da parede que exibe um desenho mais elaborado, bem diferente da decoração de pedras que denotam a maneira como a parede foi erguida.


               O Batistério. Edificado entre os anos de 1153 e 1265 foi projetado por Dioti Salvi que elaborou um sistema inovador para a sustentação de seu telhado redondo. Esta complexa (para a época) cobertura que acompanha o formato do edifício e termina com um cone bem pronunciado, é suportada por uma estrutura de colunas internas que ajudam no sistema estrutural. Este cone puxa o volume para cima e acentua as nervuras do prédio. Interessante a mudança das telhas que dividem a cobertura em duas, dando ao Batistério duas fachadas distintas não demarcadas pelo desenho da elevação.
               Ao fundo, em segundo plano, aparece a antiga muralha da cidade que cerca parte do conjunto.


               No Batistério apenas a arcada inferior é do estilo Românico. As duas faixas superiores já adotam uma linguagem gótica mais refinada e elaborada. É bom lembrar que o Românico manifesta-se entre os anos de 1030 e 1200 e o Gótico surge a partir de 1140 indo até os anos de 1500. Após essa data toda manifestação gótica é considerada tardia, como por exemplo, o Manuelino Português, financiado pelas descobertas marítimas e repleto de símbolos náuticos, como os magníficos entalhes de cordas.


                A torre vista de baixo e de bem perto revela suas grossas paredes com aberturas muito pequenas. A janela da torre mostra claramente o tipo adotado que é classificado como janela de voamento. Este tipo de janela constitui-se basicamente de uma fresta  que vai se alargando leve e progressivamente para o interior ou exterior. Na torre a janela é de voamento simples, quase como uma seteira. Quando a janela inicia mais larga, afina no meio da parede e volta a alargar é chamada de janela de voamento duplo.
               O estilo se adaptou aos parcos recursos construtivos da época que impediam o surgimento de grandes vãos, ainda mais em estruturas altas e delgadas.  Os desenhos de mármore claro e escuro e a inserção de elementos quadrangulares entre os arcos de feitios semicirculares são características bem marcantes aqui em Pisa. As faixas horizontais são típicas das construções da Itália central e principalmente da região da Toscana. Aqui elas aparecem bem marcadas e se repetem no corpo da igreja e do batistério.


               A torre está desalinhada em cerca de quatro metros desde o topo até a base. Depois de anos interditada para a visitação pública, foi reaberta após uma moderna intervenção de engenharia que solidificou o solo sob a base da estrutura e cessou o processo de afundamento que ameaçava ruir a torre tombada pelo patrimônio histórico e cultural da UNESCO. O ritmo da inclinação girava em torno de um minuto de grau por década e caminhava para o colapso e conseqüente desmoronamento. Esse afundamento que causou a famosa inclinação foi notado pela primeira vez durante a construção do campanário. Para tentar contrabalançar e cessar o efeito negativo da falta de prumo os construtores fizeram os dois últimos andares em forma de cunha.
               De acordo com o entendimento técnico atual, a área da base da torre é considerada pequena para sua altura. Esse fato pode ter sido o responsável por gerar cargas excessivas e concentradas sobre suas fundações. Essas cargas são bem superiores às de outras torres da mesma época e excessivas se comparadas com as construções tradicionais.
               Uma curiosidade: em determinado momento, ao subir a escada helicoidal que leva ao topo, apesar de estar vencendo os degraus, a sensação é de estar andando no plano.


               A fotografia acima nos revela várias coisas. Em primeiro lugar é pertinente afirmar que a arcada listrada que alterna dois tons de mármore, do oitavo e último piso, sofre clara influência da arquitetura islâmica. Em segundo, é possível a partir das pessoas junto ao guarda-corpo desse mesmo piso, estabelecer um paralelo de medidas e perceber que a torre é mais alta do que parece. Em terceiro, que as paredes do andar recuado do topo (sino-câmara) são menos espessas que as dos andares inferiores. As paredes, muito grossas, possuem cerca de quatro metros de espessura na base e aproximadamente dois na parte mais alta. Em quarto, pode-se perceber que é livre a visão de céu por entre as arcadas, deixando bem claro que na área destinada à colocação dos sinos não há cobertura no centro.


               O Duomo tem planta cruciforme (em forma de cruz latina) ampliada a partir da original que era basicamente retangular. Com o passar dos anos foi sendo reformada e foi ganhando contornos mais claros desse estilo de implantação.
               Seus transéptos bem demarcados foram esticados e por fim dotados de absides. A abside nada mais é que o volume protuberante situado na cabeceira da nave, como remate do corpo do templo onde fica instalado o altar mor. Geralmente projetada de forma semicircular e coberta por uma semi-cúpula com formato aproximado de concha. Pode, porém, ser edificada com outros formatos e pode também ser feita aos pares ou em múltiplos. Nessa igreja elas aparecem tanto na nave principal (maior e em destaque na fotografia) como nos braços dos transéptos.
               A cúpula oval datada de 1090, executada em tijolo e pedra, parte de uma base sextavada e assume contornos de influência islâmica.
               


               Camposanto de Pisa: uma bela vista do núcleo do cemitério, com seu alongado pátio interno que lembra muito um claustro.

               A cúpula ao fundo do retangular espaço aberto é da sua pequena capela. Suas aberturas ainda apresentam o arco de volta perfeita (arco pleno) característico de todo o conjunto sacro analisado, mas ganham um trabalho rendilhado em pedra muito típico do estilo Gótico Primitivo. A Itália foi um país que não teve um desenvolvimento do estilo Gótico tão forte como os que são encontrados na França, Inglaterra e Alemanha. Comparada a esses países sua produção arquitetônica pode ser considerada tímida o que proporcionou uma ampliação temporal da influência do anterior Românico. Já nos prédios seculares ou laicos a linguagem gótica foi aceita com mais facilidade e requinte e com menos conservadorismo, como por exemplo, o Palácio dos Doges de Veneza.

               Embora tenhamos nesse conjunto de Pisa um extraordinário exemplo do Românico a produção de edifícios desse estilo em solo italiano também não faz frente aos demais países da Europa Ocidental.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Norman Rockwell


               Toda a obra desse artista norte-americano é rica em detalhes e sentimento. Considerado por muitos o maior ilustrador daquele país, Norman Rockwell legou ao mundo uma quantidade enorme de belos trabalhos que retratam de maneira inigualável os costumes dos Estados Unidos da América, principalmente das décadas de trinta, quarenta e cinqüenta, ainda que suas obras tenham adquirido destaque a partir de 1913, dando início a uma carreira que avançou até perto de sua morte em 1978. Seus personagens exalam bom humor e romantismo, por vezes tão reais, que causam no observador uma reação de familiaridade que poucos artistas conseguiram. Muito em razão dos temas prosaicos e corriqueiros, vividos por todos no dia-a-dia da vida. Qualquer situação ou acontecimento era fonte inesgotável para Rockwell. E aí está a sua graça e sua atemporalidade. Seus desenhos possuem data, visto o estilo impresso nos trajes e nos cenários, mas todo o sentimento e moral por trás de cada ilustração rompem os limites dos anos e caminham junto com a atualidade.


  Mesmo em seu auto-retrato a originalidade e a perspectiva dada ao observador causam espanto.


Acima a obra intitulada "O Cinema".


Acima "A Fofoca".
De todas as suas ilustrações, esta é a minha favorita.


               Cenas ricas em detalhes e expressões faciais cuja sutileza e realismo magnetizam o observador, registram o "american way of life". Este trabalho acima, que retrata um menino em "fuga" em inocente conversa com o policial no balcão da lanchonete, foi feito a partir de um registro fotográfico e caracteriza a segunda fase da obra de Norman Rockwell, quando os desenhos abandonam o ar infantil e adquirem traços mais realistas.





               Frente a qualquer desenho, o observador passa a absorver deliciosamente os mínimos detalhes e captar o espírito do momento retratado. Mesmo para aquele que a vê pela primeira vez, a obra do pintor oferece um prazer imenso.  Os desenhos de Norman Rockwell são assim: francos, fantásticos e convidativos.


               Desenhos ricos, fabulosos jogos de luz e sombras, uso indiscriminado de cores e brilhos e o inconfundível requinte de detalhes, foram uma constante em sua obra.  


               Como crítico de sua época e de sua sociedade, presenteou o grande público com uma variação temática que abrangia a tudo e a todos. Tanto podia ser um personagem do campo como da cidade. Raças, credos, classes, situações das mais diversas, não importava: tudo o que foi relacionado com o mundo social ao seu redor, passou pelo bico de sua pena.


Sempre uma análise de comportamento, principalmente da classe média, estadunidense.


Os temas natalinos muito ao gosto popular renderam fama ao autor.



 Rockwell nutria uma predileção pelos temas relacionados às crianças.