terça-feira, 5 de agosto de 2014

Centro de Ciências de Connecticut

            Além de Capital do Estado, Hartford é a sede do moderno e atuante Centro de Ciências de Connecticut, criado para levar a diante a tradição do Estado na vanguarda da pesquisa, da invenção e do estudo de novas tecnologias, dando suporte ao ensino da ciência e na elaboração de novas formas e caminhos pedagógicos. 

                 Foi fundada em 1637, sendo dessa forma, uma das cidades mais antigas dos estados Unidos da América que atingiu grande importância logo após a guerra civil, época em que se tornou um centro muito rico e influente. Com o desenvolvimento sentido nesse período de ouro, alcançou um patamar de excelência cultural e social que legou para tempos futuros um patrimônio de inestimável valor urbanístico e arquitetônico, como por exemplo o mais antigo parque público existente no país. 

                 Hoje não muito grande, possui cerca de cento e cinquenta mil habitantes e é famosa por concentrar em seu centro financeiro o segundo maior número de empresas de seguro do mundo. Seu centro histórico é muito bonitinho e possui muitas coisas interessantes, inclusive uma obra de Alexander Calder no jardim do Wadsworth Atheneum Museum of Art, também o mais antigo museu de artes fundado em todo o país.


O vermelho Stegosaurus de Calder.


Abaixo o belo edifício sede do Centro de Ciências objeto desse post.


                Projetado pelo renomado arquiteto de origem argentina César Pelli, totaliza 13.000 m2 (treze mil metros quadrados) de área útil, divididos em quinze andares. A maior parte fica acima da plataforma que serve de cobertura para os andares inferiores, bem mais largos. É considerado uma obra "verde" que levou em conta a ideia de sustentabilidade e preservação desde seu projeto e construção até sua manutenção. Por exemplo: mais de duas mil toneladas de aço (equivalentes a quase noventa por cento desse material que foram empregadas em sua estrutura) são provenientes da reciclagem de automóveis.


               Com linhas bem modernas foi inaugurado em 2009 nas margens do Rio Connecticut e desde então diferencia-se de maneira notável dos outros edifícios da cidade. Sua leveza o destaca tanto dos prédios mais antigos como dos novos empreendimentos. Nenhuma outra estrutura da cidade é capaz de fazer frente à este suave projeto de Pelli.


                 Essa fachada é voltada para o rio Connecticut e é aquela que chama a maior atenção. É mesmo a mais bonita. Só não entendo esse terrível conjunto de janelinhas redondas. Horrorosas e totalmente dispensáveis! Perdidas! Sem propósito algum! Tapem esses óculos! (risos). Inversamente, o volume quadradinho que surge ao alto do plano inclinado já é interessante, mesmo que seja de beleza duvidosa. Ele já bastava!


               A cobertura arredondada é linda e por baixo não perde seu encanto. Sua parte interna com duas águas invertidas e uma linha bem marcada no meio é bem forte! E quando alcança o exterior e forma as três facetas triangulares fica ainda mais bonita. O encontro do caixilho com o teto formando um outro vê é bem legal. Gostei demais dessa parte. Outro belo efeito visual é o paralelismo quebrado entre a linha reta do topo acima das letras com a curvatura do teto em balanço. 


A pequena laje quadrada que se projeta ao alto é internamente um mirante com vista de 180 graus. 
É o primeiro prédio com nariz que conheço! (mais risos)


                Novamente aqueles pilares sem relação com o caixilho. Um erro recorrente que passa batido pelos grandes projetistas. Um projeto desse porte não deveria tratar esse problema de maneira tão displicente. A estrutura não deveria competir com os materiais de vedação. Nunca! Nesse ponto tenho admiração pelos projetos modernistas que tratavam os pilares com muito mais consideração obtendo resultados plásticos maravilhosos.


               O Centro de Ciências aberto para a plataforma superior ajardinada. Essa plataforma se comunica com a cidade por meio de um jardim suspenso e pelo nível mais alto do passadiço lateral, entretanto o prédio continua para baixo e tem suas entradas principal e de serviços nas ruas inferiores.



A ponta convexa da onda. Abaixo do robozinho ainda existem alguns andares de prédio.


              Essa fachada definitivamente não foi feita para ser vista de frente. Deve-se entendê-la sempre de um ângulo diferente e de preferência em movimento. Isso acontece por causa das inclinações de suas superfícies. Ainda bem que a parede interna amarela é visível do exterior porque todo esse cinza cansa um pouco.


               A obra é muito monocromática e seus vidros nada reflexivos. Suas paredes absorvem muito a luz solar e o jogo de sombras que poderia ser muito maior pouco aparece. É um prédio que ganha vida a noite! Quando iluminado fica extraordinário. Em tempo: o robô é uma instalação provisória; não faz parte do prédio.


               A fotografia dessa fachada (voltada para a cidade) não mostra o quanto o prédio é bonito. Na verdade essa elevação é um pouco pobre, apesar de ter sofisticadas inclinações de seus panos de vidro. A parede da esquerda não é vazada como deveria, e sim vedada ao interior, funcionando como tela ao exterior onde são projetadas imagens luminescentes e multicoloridas. Recurso cabível para um museu e centro de ciências. Essa telona high tech  deixa o prédio lindo durante a noite e, voltada para a cidade e para a praça em primeiro plano cria um ponto focal bem poderoso. 
               Mas... e aquelas duas janelonas horizontais... são medonhas! (risos) O que houve? E os pilares aparentes nas pontas? Faltou refino. 


Nas duas fotos anteriores aparece a praça rebaixada (de lazer e alimentação) que respeita a cota das ruas. Acima dela a grande plataforma com seus jardins.

Abaixo algumas imagens disponibilizadas na rede.

             A seguir, uma visão aérea que melhora o entendimento do edifício. A grande onda que domina o projeto é de fato muito linda. Sua cobertura marca o vão central que une o prédio e ao mesmo tempo o reparte formalmente em três partes distintas. Tais partes se comportam de maneira própria e autônoma não deixando lugar para a simetria inicial da planta baixa. O arquiteto abusa da inclinação de suas superfícies, tanto no sentido horizontal quanto no vertical. O mesmo tratamento que dá ao volume da direita, repete no da esquerda alterando apenas seu eixo.
            Aqui como na maioria dos projetos atuais a pele de vidro é o maior elemento de ligação. Pode-se abusar das formar e criar os mais diferentes volumes em um mesmo prédio, desde que todos ganhem o mesmo revestimento vítreo, para que o resultado seja unitário. Assim fica fácil projetar... Nossas fachadas, a partir desse entendimento, caminham para uma pobreza atroz, subjugadas ao volume. Não existe mais a relação do todo ao particular! A minúcia, o detalhe, a filigrana, o diferente, a surpresa, nada disso existe mais! Vidro, vidro e mais vidro, revestindo corpos em curvas, torções, balanços e piruetas mil! Belos, sem dúvida! Mas sinto falta do detalhe, do mais perto, do próprio e do único, ou seja: do particular. Só vejo o todo!
           É verdade que com toda essa riqueza dos volumes um detalhamento muito rebuscado ficaria exagerado e inapropriado, mas a crítica anterior vale para uma reflexão, pois visto do alto e bem distante o prédio ganha contornos e belezas que se perdem quando mais perto.

          Antigamente projetava-se para uma escala mais próxima, depois para uma escala um pouco maior e mais aberta. Hoje parece que se projeta para ser visto de bem longe. Mas a convivência se faz de bem perto. Como trabalhar essa contradição? Essa obra de Pelli, tem garantida várias vistas abertas, distantes do prédio que se ergue praticamente isolado sobre uma plataforma (primeiros pisos) mais alta que a rua. Ao seu redor grandes espaços públicos mantém distantes os demais prédios do centro da cidade, o que lhe garante autonomia e domínio no espaço urbano. legal! Foi criado para ser um marco da arquitetura moderna dessa cidade que já foi uma das mais importantes e ricas do país e que hoje amarga um posto nada confortável, figurando entre as cidades norte-americanas mais pobres. Isso já justifica um trabalho maior de seus volumes do que de suas fachadas. Mas que é uma tendência, não há como negar.


Uma interessante fotografia da estrutura metálica de parte do edifício.


            Na próxima imagem aparece, fotografado de baixo para cima o grande vão central. Este espaço, que conecta as duas partes do prédio, permite a entrada de muita luz natural e abre o interior para a vista da cidade. Recintos de conexão, com vãos muito altos como este, dotados de muita dinâmica entre seus andares e cheios de perspectivas, sempre encantam. Projetos que adotam este partido inevitavelmente agradam à todos. Aqui a receita de sucesso é garantida e a exceção à regra não existe. Mesmo que suas escadas não sejam das mais bonitas e que se choquem com os pilares em "V" e que a estrutura metálica vermelha acabe repentinamente sem se preocupar em fazer uma ligação harmônica com o seu interior o conjunto é bonito. 


               A confusão obtida pela visão de quem está em baixo desaparece totalmente quando o observador muda de lugar e passa a desfrutar da vista dos andares mais altos. Essa transparência dos enormes panos de vidro que trazem a rua para dentro do prédio é muito bem explorada. Não é nenhuma grande "sacada" mas é aqui muito bem aplicada. Ao fundo, em segundo plano, a cidade com suas linhas mais clássicas, por trás da plataforma de circulação que vence as grandes vias de rolamento de contorno e permitem um acesso seguro ao Centro de Ciências. Ao centro dessa laje elevada uma praça na cota zero.   



               O desenho abaixo é muito lindo e mostra a relação entre a cobertura orgânica com o todo. Poucas vezes se vê um elemento ondulado tão bem colocado como este. A inclinação das duas arestas laterais, causando um deslocamento das superfícies de base e topo, da maior parede (aquela que possui as janelas redondinhas) é o verdadeiro elo de ligação entre as linhas retas do conjunto com a onda de cobertura. As paredes de vidro, também muito bem colocadas, fazem a ligação entre os diversos corpos sem causar nenhum tipo de conflito ou ruído. Os vãos projetados também funcionam muito bem e fecham os limites determinados pelos balanços. 



quarta-feira, 21 de maio de 2014

Catedral de Sal de Zipaquirá

               Localizado na cidade colombiana de Zipaquirá, pertencente à área Metropolitana da Capital, conhecida como Bogotá Maior, este monumento nacional foi criado nas profundidades de uma mina de sal que deu origem ao atual Parque do Sal. Surgindo primeiramente como uma tímida capela feita pelos próprios mineiros no início da década de cinqüenta do século XX, foi ampliada e ganhou notoriedade mundial. Depois de quarenta décadas de existência, suas três grandes naves foram fechadas por questões de segurança e posteriormente cheias de água. Na década de noventa um concurso público de arquitetura propôs uma nova catedral ainda maior e sessenta metros mais profunda que a original. Em 1995 foi inaugurada sua substituta tendo como vitorioso o projeto do arquiteto Roswell Garavito Pearl. 

                 A retirada de sal continua a todo o vapor nessa região, mas essa igreja fica hoje, em uma área livre da exploração mineral. Extremamente segura não sofre com os efeitos dessa atividade e não corre o risco de ter suas estruturas abaladas a exemplo da primeira Catedral.  
                
         O parque não é muito grande e também não tem muitos atrativos. Na entrada logo após ao estacionamento existe uma grande esplanada (Plaza Del Minero) rodeada por uma baixa arquibancada semicircular. Nos jardins circundantes são exibidas poucas estátuas e o paisagismo me pareceu um tanto pobre, mas que de forma alguma desvalorizou o local e sim deu mais ênfase ao conjunto subterrâneo. 




A medonha árvore para praticar escalada na Plaza Del Minero.

            Uma árvore de escalada na entrada e uma parte da antiga mina que funciona como museu na saída (Museu da Salmoura), complementam o complexo. Este museu ainda que pequeno e com pouco acervo é muito interessante. O visitante é monitorado o tempo todo por um funcionário que não poupa simpatia nem informações durante todo o percurso pelos antigos tanques de decantação. O que falta em objetos e material iconográfico sobra em originalidade e toda a deficiência gerada pelo parco conjunto é compensado pelas agradáveis explicações do funcionário, ancoradas nas didáticas mostras de suas documentação e pesquisa.   


              Na entrada um acentuado declive já encaminha a circulação diretamente para a porta da Catedral. Uma cruz latina marca de forma simples, porém eficiente a chegada ao templo. Fixada em uma laje muito alta parece menor do que realmente é e estabelece o ar austero e simples que prevalece em seu interior. Uma mensagem de que o ambiente é quase espartano, duro como a atividade da mineração. Muito legal entender esta postura na escolha das linhas estéticas do projeto que leva em conta as dificuldades dessa profissão espinhosa e sofrida. Nota-se em ambas as fotos (abaixo com zoom) que assim como no Brasil o equivocado reflorestamento com Eucalíptos também foi adotado na Colômbia!


                A abertura na montanha emoldurada por seu mais que simples pórtico é tudo que temos de uma fachada! (risos) É muito estranho entrar em uma Catedral dessa magnitude e não conseguir visualizar e entender seu real tamanho por não existir um corpo externo. Nada de edifício, torres, cúpulas, naves etc... Isso é óbvio, por se tratar de uma igreja dentro de uma mina, todos sabemos, mas não deixa, por isso, de ser estranho. Não há aquela chegada a um templo cuja imagem vai sendo absorvida a medida que dele se aproxima. Ao invés disso, entra-se em um túnel inóspito e ameaçador que nos leva ao interior da rocha para, bem distante do ambiente externo, deparar-se com uma obra tão fora do comum. 
               Algo parecido vivi na Espanha no Valle de Los Caídos (Abadia de Santa Cruz del Valle de los Caídos). Assim como aqui, lá, uma imponente catedral também foi escavada na rocha, entretanto, a grande praça que antecede sua entrada, circundada por um conjunto magnífico de edifícios, bem como seu gigantesco cruzeiro que atinge 150 metros de altura, antecedem e ilustram o estilo que se repete no interior. Mas mesmo assim , sabendo que dentro o gigantismo e a presunção do gosto militar de Franco são a tônica do projeto, a imagem da abadia não é clara o suficiente para o observador perceber sua escala. Desse modo, internamente, a mesma surpresa espera quem a visita. 


               Um pouco antes de chegar à entrada da mina, figura esse baixo relevo entalhado na pedra que disfarça uma passagem de nível e retrata mineiros em pleno trabalho. Senti mesmo a falta de mais obras de arte como esta. Pouquíssimos murais! Uma pena! Neste aqui, aparecem retratados dois homens da era moderna com um jogo de engrenagens em segundo plano, dando muita importância à extração de grande volume da mina que ainda hoje mantém áreas em plena atividade. O fato é que o sal já era conhecido e retirado por comunidades indígenas da cultura pré-colombiana da qual deriva inclusive o nome da cidade. Em nenhum momento pude ver obras de arte de real valor que contasse esta parte da história. Aqui, a mulher que aparece sentada e a criança que carrega uma pomba, pouco tem a dizer sobre a área e sobre a atividade econômica que move a região. Suas vestes apenas sugerem que possam ser da época ancestral. Quem é ela? E a criança? E a pomba? Nenhuma placa existia por perto para que estas dúvidas fossem sanadas. Entendi só metade do mural! Mas, já é alguma coisa! (risos) É claro que existe uma razão para que estejam ali e suponho que sejam a ponte entre o passado e o presente. Se este for o caso ficam então, bem representadas todas as épocas da mineração do sal-gema em uma composição artística bem simples, dividida em dois pólos: o da direita na foto, bem denotativo (por isso bem mais mais forte) com as figuras masculinas em uma relação laboral bem clara e o da esquerda, de cunho conotativo, que induz o raciocínio para uma relação familiar e social que mantém sua base econômica na mineração dessa riqueza. Vai que é isso...
                    Pena o estado de conservação deste mural. Ainda que inteiro, sem avarias significativas, não justifica a sujeira e as marcas do tempo; ainda mais por ser praticamente o único painel importante da área e com facílimo acesso! Uma regularidade na lavação com jatos de água pressurizados ia bem... ou ainda, uma escovinha de aço, caso fosse do interesse em manter algumas áreas mais escuras do que outras para tirar proveito do efeito de fundo e figura e dessa forma dar mais movimento ao quadro.  


               Na primeira etapa de ingresso à catedral, seus acessos se comportam tal qual a entrada de qualquer parte da mina, fortalecidos por estruturas de ferro colorido (pintadas com um vermelho sangue) e iluminadas com lâmpadas embutidas no solo que constantemente mudam de cor em um esquema aleatório. Durante todo esse percurso em que o visitante entra e caminha mina a baixo, vai passando pelos túneis com corte abobadado, acabamento rústico e cheios resíduos de sal teatralmente iluminados com cores vibrantes e intensas. Verdes, roxos, amarelos, azuis e vermelhos se alternam de forma cinematográfica enchendo o ambiente de cor e aumentando a expectativa pelo o que há por vir. Dois quartos do arco que correspondem às paredes, deixam a pedra e o sal aparentes e os dois quartos restantes, que fazem as vezes de teto, possuem troncos de madeira perfilados que impedem possíveis quedas de fragmentos. A mina é muito segura e o uso de capacetes não é obrigatório. 


Muito legal o efeito de luz sobre a superfície rugosa.


           O azul parece coral! Interessante pois toda essa área já foi um mar. Com os movimentos da calota terrestre surgiram os Andes e houve uma elevação dessa área. Com a pressão e o calor a água secou e a rocha acabou cobrindo e compactando a reserva de sal, encapsulada por fim, no altiplano colombiano.


                Vencida a primeira etapa da longa entrada onde o desnível é bastante sentido e onde as curvadas vigas de ferro sustentam parte dos tetos e paredes, chega-se ao início da sequência da Via Dolorosa que antecede a grande nave da Catedral. Nessa segunda parte de corredores o projeto arquitetônico já se faz presente: o corte típico de túnel é abandonado e as galerias passam e ter tetos e paredes mais planos. 

               Cada estação desta Via-Crúcis  está localizada na entrada de uma galeria perpendicular ao corredor principal, que também de forma aleatória não respeitam o lado direito ou esquerdo e não possuem as mesmas dimensões. Umas mais longas, outras mais curtas, variam também nas alturas de seus tetos, largura entre suas paredes e nas cotas de seus pisos. Respeitando assim as limitações impostas pela rocha e pelo sal escavados. Lindo, lindo, lindo. Na fotografia abaixo aparece uma das estações: rebaixada do corredor principal tem seu piso lisinho e brilhante tal qual sua cruz devidamente iluminada. O túnel que se perde ao fundo é inacessível e exemplifica como ficam as galerias da mina depois de abertas.


               A medida em que se avança pelas estações, a cruz vai surgindo e crescendo; a cada etapa ela aparece ainda maior e sempre acompanhada por outros elementos também executados em robustos blocos de sal que completam a mensagem e ilustram a cena. As cores aqui também variam de estação para estação, mas permanecem sempre as mesmas em cada parada do trajeto. A esse ponto as imagens ainda não figuram na composição, ficando restritas ao templo propriamente dito.

            Depois de percorrer toda a via sacra, chega-se a um cômodo que se abre em um mezanino descortinando a grande nave da Catedral a sua frente a aos seus pés. É de um impacto colossal! A gigante estrutura cavada na montanha vista de cima, tendo a igreja lá em baixo, recebendo para o culto os seus fiéis (sim, porque missas são celebradas ali!) com toda a sua magnitude e altivez, deixa qualquer um de queixo caído. Boquiaberto fica-se também com a gigante cruz ao fundo do altar vazando uma parede e sendo iluminada tanto pela frente como por trás. O símbolo maior do cristianismo, brilhando através de seu espaço vazio de um corte preciso e retilíneo, em contraste com as superfícies irregulares do ambiente, criando camadas de cores em seus cheios e vazios é de uma incomparável poesia.

      
Lindo os desenhos do teto. Lindas as rugosidades das paredes. Linda a perspectiva!


16 metros! Essa é a altura da cruz do altar-mor.


Diferentes ângulos com diferentes cores da altíssima cruz.


Agora, dentro da igreja, vários ambientes se conectam. Todos enormes! As esculturas e entalhes aparecem...


Acima e abaixo duas das diversas esculturas espalhadas por todo o interior. Comparativamente é fácil notar o importante efeito cromático conferido pelo jogo de luzes coloridas.



As imagens sacras são todas muito lindas e sempre monocromáticas exceto a santa abaixo.


               Ainda que pouco nítida, a fotografia acima mostra um pormenor da capela, com o nicho de arco pleno que guarda a imagem de Nossa Senhora do Rosário, padroeira dos mineiros, e santa já consagrada na primeira Catedral. O interessante é ver os vários buracos, como os tantos onde eram colocadas as bananas de dinamite, fazendo um fundo decorado para a estátua cristã. O paralelo nos faz pensar em coisas como: quem tem mais poder? A fé ou o explosivo? Ou ainda: a pureza e altivez da santa suplantando a força do homem! Interessante...

             Esta pequena e policromada imagem, sem muito valor artístico é a original trazida para a primeira igreja, portanto, com um valor sentimental e histórico maior que as demais. Gosto do contraponto que essa santa de gosto popularesco e duvidoso faz com o resto da igreja. Lembra de valores como a humildade e a simplicidade. 

            O leve e brilhante branco, pontuado pelo verde limão e pelo azul celeste das vestes, contra o pesado e acinzentado fundo, cria um ponto focal fortíssimo. Interessante também são os veios das paredes de sal que lembram desenhos de blocos de mármore, o que dá um ar bem austero e requintado aos ambientes, praticamente nus de elementos decorativos. Já que as paredes são na sua maioria em tons de cinza, as cores projetadas artificialmente sobre as superfícies tanto lisas como rugosas é que conferem a grande beleza da decoração interna.


Acima uma vista da capela.
Abaixo uma outra vista, agora do chão no meio da nave principal.



Em um bloco de mármore entalhado no chão da nave, uma reprodução da  Criação de Adão de Michelângelo. 
Muitos se confundem e pensam se tratar de uma pedra de sal.


             Em um dos espaços entre os diversos túneis uma cúpula talhada no teto e ricamente iluminada. Diferentemente de outras construções sacras, esta cúpula não cobre nenhum espaço de alta importância, como um altar ou um transepto, nem mesmo uma capela ou um abside. Esta em especial fica localizada em uma conexão de túneis ao final da via sacra em uma área exclusivamente de circulação que é comumente chamado pelos espanhóis de "área dos passos perdidos". Mas está lá! Presente na igreja como um elemento arquitetônico que não pode faltar em um edifício desta natureza. Sem entrar no mérito da necessidade ou obrigatoriedade de ter na composição interna do projeto uma ou mais cúpulas, penso que seu posicionamento desconectado de uma função ou hierarquia caiu muito bem: trouxe modernidade e quebra de paradigmas! Tudo é uma questão de interpretação...


A placa (back light) do café marca a profundidade máxima atingida pelos visitantes no interior do templo.


Além da inesperada e relativa alta umidade do ar...  um pouquinho de frio...


               A seguir uma foto de um reservatório de água aberto que espelha com perfeição o teto da mina. Além desse espelho d'água somam-se à grande Catedral uma galeria de artesanato, uma pequena cafeteria e um auditório. Neste auditório são ministradas pequenas palestras e é oferecida a projeção de um filme explicativo que conta a história da mina e a construção de suas duas igrejas. 


            Essa obra é considerada como a primeira maravilha da Colômbia e concorreu (sem êxito) representando o país na escolha das sete maravilhas modernas do mundo. A despeito de qualquer avaliação uma certeza existe: é uma maravilha da engenharia civil mundial!
                   

            O município de Zipaquirá dista cerca de 48 km de Bogotá no sentido norte. Com registros arqueológicos anteriores à era da invasão espanhola figura como uma das cidades mais antigas da Colômbia. Sua praça central é bem típica das cidades andinas e sua igreja principal também ostenta aquela enorme fachada que domina um lado inteiro do espaço aberto seco e quadradão. Os outros edifícios variam de estilo indo do colonial espanhol para o insípido modernismo, passando pelos neoclássico e ecletismo com influências ítalo-francesas. Tudo em tímidas linhas e pequenas doses sem nenhum tipo de alarde. A própria Catedral que exibe sua frontaria sem reboco é muito pobre em adornos. Até os nichos de sua fachada estão vazios sem nenhuma imagem. O relógio quadrado é quase uma aberração! Além de muito feio tapa um arco da torre sineira! Mas mesmo assim ela é bastante poderosa e muito bela. Gostei!


sexta-feira, 16 de maio de 2014

O Leão de Lucerna

               Lucerna na Suíça é um daqueles lugares onde o visitante se sente acolhido de imediato. Não é muito grande e nem muito populosa e ainda por cima exibe uma série de belas igrejas em meio à típicos edifícios da arquitetura local em um traçado que mantém seus monumentos muito próximos uns dos outros. Por essas características torna-se muito agradável de ser visitada. Mas esse sentimento de bem-estar não deriva somente da fácil visitação de seu centro histórico, beneficiada pela concentração de suas principais atrações turísticas, mas também por outras razões: um povo reservado na medida certa sem perder a simpatia, proporções humanas mantidas no conglomerado urbano, tráfego seguro e eficiente, limpeza exemplar, estabelecimentos comerciais que variam do mais antigo e tradicional ao mais moderno e vanguardista, boa culinária e por fim, as famosas "paisagens de embalagem de chocolate" que emolduram todas as perspectivas da cidade. 
               Para os menos afortunados, um dia somente é suficiente para uma bela visita, entretanto, para quem tem a sorte de poder desfrutar umas horinhas a mais nesta cidade, o tempo extra reserva boas surpresas. Para uma visita curta não há como fugir de um rápido passeio ao longo das duas margens do rio Reuss, cruzando a famosíssima ponte de madeira para ir de um lado ao outro e cumprir com a agenda turística obrigatória. 



            Se o tempo disponível for maior, outros passeios são oferecidos para conhecer mais a fundo sua história e seus arredores, além da incomparável oportunidade de entrar onde e quando quiser para sentir de fato como é a cidade. Em ambos os casos Lucerna se mostra encantadora, mas certamente ninguém deve sair de lá sem apreciar, aquela que é em minha opinião, uma das mais instigantes esculturas do país. Falo do Löwendenkmal ou Leão de Lucerna.

                    É uma estátua de pedra, que representa um leão agonizante, criada em homenagem à Guarda Suíça que defendia o Rei Luís XVI e que tombou durante a Revolução Francesa.

               Esculpido diretamente na rocha, ao centro de uma parede de arenito, onde no passado funcionou uma pedreira (hoje dentro dos limites da cidade) aparece deitado de lado dentro de um nicho, do qual pende uma de suas pernas em pleno estado de cansaço. Sua face moribunda revela o estado do animal, mortalmente ferido pela flecha que resta quebrada e encravada em seu dorso. Toda a agonia do felino, nesse seu martírio permanente, encontra seu contraponto na maciez de sua juba e na agradável sombra de seu leito eterno.  
                
                 Por estar acostumado a sempre  ver esculturas de leões fortes e altivos, ora como guardiões, ora como reinantes, tive aqui um impacto realmente perturbador! A representação que homenageia a Guarda de mercenários suíços massacrados por revoltosos na Revolução Francesa em 1792, em defesa da família real nos domínios do Palácio das Tulherias, é tocante! A homenagem é linda! 

              Com desenho assinado pelo escultor dinamarquês Bertel Thorvaldsen, de linhas claramente classicistas, celebra a honra humana e é dedicado à coragem desses suíços. O leão, ainda com um sopro de vida, resiste e protege um brasão com a Flor-de-Lis (símbolo do rei francês) e é amparado por outro brasão, agora com a cruz suíça. Não tenho palavras suficientes para transmitir a força desta obra-prima. 

               Já como registro histórico, traz  gravado na rocha os números dos homens mortos, feridos e sobreviventes no levante. Uma inscrição em latim traz a seguinte frase: HELVETIORUM FIDEI AC VIRTUTI, que significa "`a lealdade e bravura dos suíços".


               Junto ao paredão e mantendo separados em confortável distância seus observadores, um pequeno lago de água bem escura (que ganha nuances esverdeadas conforme a luz do sol), amplifica ainda mais o ar nostálgico da estátua.


               Talvez sem paralelo no "mundo das esculturas de animais", este leão executado pelo alemão Lucas Ahorn e terminado no ano de 1821, é realmente impressionante. Nem tanto por sua enorme proporção (com cerca de dez metros de comprimento), nem mesmo pela dramática e dificílima forma com que foi criado e executado (esculpido diretamente na rocha), mas sim pelo comovente retrato e verdadeira homenagem.  


               O mais interessante de tudo é o silêncio que predomina no ar! Parece que muitos, ao fitarem a escultura e se darem conta de sua mensagem, ficam solidários com o sofrimento expresso pela imagem do animal. Recolhido em seu leito de morte, abatido e ferido pela lança do inimigo, provoca no visitante um sentimento de cumplicidade que assume um ar respeitoso e bastante contido, eventualmente (ainda bem!) quebrado por uma ou outra criança alheia à toda carga simbólica da alegoria. Fico imaginando a sensação de visitá-lo em época de neve no rigoroso inverno centro-europeu! Deve ser ainda mais dramática a cena! 
                  

               Localizado em um recanto bem próximo ao centro medieval de Lucerna, este pequeno parque é em primeira instância uma bela amostra de paisagismo e de como se pode transformar uma área danificada pela extração mineral em um ambiente atraente; em segundo, uma amostra de como uma única e bela obra de arte pode assumir um papel tão excepcional a ponto de se tornar um marco da cidade e um ícone do país.