terça-feira, 8 de setembro de 2015

Parque Lage

           Belíssima construção em estilo eclético, com predomínio de elementos da arquitetura italiana, encomendado pelo industrial carioca Henrique Lage, para agradar sua amada esposa, e cantora lírica Gabriella Besanzoni, quando ambos vieram morar no bairro do Jardim Botânico no Rio de Janeiro. Ocupando a parte central do que resta de um imenso terreno que antes fôra uma fazenda às margens da Lagoa Rodrigo de Freitas, permanece altivo e encantador como teria sido nos anos em que o casal ali morou.




          Projetado pelo arquiteto italiano Mário Vodreti na década de 20 do século XX, ao centro de uma rica chácara aos pés da Floresta da Tijuca e com o Corcovado rochoso encimado pelo Redentor ao fundo, constitui-se hoje no mais exuberante cenário da arquitetura de época ainda preservada na cidade do Rio de Janeiro. 


         
             Sua extraordinária fachada reflete a simetria de sua planta baixa e seus três arcos paladianos denotam o gosto e a influência de sua dona. O grande volume central, que insere o maravilhoso pórtico, evidencia ainda mais a ideia de planta rebatida e marca a área da piscina central. Esse altíssimo pórtico dá acesso direto ao hall de entrada por meio de uma formal e cerimoniosa escada de apenas um lance, que vence a altura do porão alto e dialoga com o acesso principal do grande jardim frontal.
             



             Tendo apenas um único andar, exibe uma planta baixa de grande simetria criada a partir da enorme piscina retangular que domina o pátio interno central. Tal qual as casas dos nobres da antiguidade romana, a residência foi pensada a partir desse espelho d'água, circundado por uma galeria para a qual se voltam todos os ambientes da casa. Este grande espaço aberto, muito apropriado para o clima da Guanabara, foi palco de uma agitada e efervescente vida social, testemunhando enormes festas capitaneadas pela cantora italiana.


           Os jardins que cercam a casa, apesar de terem sido projetados, não aparentam muita riqueza de detalhes e nem oferecem grande variedade de culturas. As linhas sóbrias e os grandes panos verdes servem para enaltecer ainda mais a rica fachada de cantaria acinzentada sem competir com o fundo vegetal da mata nativa. O desnível do jardim frontal, vencido pelo talude gramado, eleva consideravelmente a linha de topo do prédio em relação à cota da rua, valorizando ainda mais o palacete e aumentando o acesso por meio de suas escadas que acabam defronte à escada principal da casa, locada no centro do alpendre.  

A luxuriante vegetação da Mata Atlântica é pano de fundo perfeito para a bela construção.
A poucos passos da rua é possível ter contato com a natureza do Parque da Tijuca.
Tombado como patrimônio municipal, detém ainda o status de Reserva da Biosfera concedido pelo UNESCO.


          A casa não possui telhado: acima e ao redor de toda a construção existe um terraço protegido pela balaustrada de cantaria que se vê na foto, dando arremate à platibanda frisada. O acesso à esse terraço é feito por uma escada que parte do lado direito da galeria arcada. Altos pilares quadrados, encimados por capitéis, marcam o ritmo e separam os arcos sustentados por colunas (mais baixas e também coroadas por capitéis) aos pares. Clara influência da arquitetura neoclássica romana. O mais interessante de toda a concepção artística dessa elevação interna é a sobreposição dos arcos que marcam o arco do meio. Ao todo três arcos se sobrepõem, elevando o olhar até a torre, que também serve como mirante. Esse recurso agiganta a casa térrea e lhe dá ares palacianos. 

           Recuperado, despoluído e aberto ao público com seus jardins mantidos à luz dos anos de glória, passou a ser um dos destinos turísticos mais interessantes para quem procura arquitetura de peso na área central da Capital. Convertido em espaço cultural, hospedando a Escola de Artes Visuais, um café, espaços para mostras e exibições, mantém sua veia artística e oferece ao carioca e visitantes ocasionais uma opção ímpar de lazer na região do Jardim Botânico.            

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Titanic Belfast

             Belfast, a capital da Irlanda do Norte, é uma cidade muito agradável, bem ordenada e limpa. Facílima de se visitar e com o tamanho certo para um passeio breve e cheio de boas surpresas. Completamente plana e com as atrações turísticas a curtas distâncias umas das outras, sugere boas caminhadas se o tempo estiver a favor. Com uma população não muito grande e de temperamento muito acolhedor e simpático, diferencia-se das capitais mais próximas e mais famosas por sua tranquilidade. Perde quem pensa que Belfast é apenas um ponto de partida para explorar as famosas formações rochosas do norte do país e os cenários naturais de produções cinematográficas. Em termos de arquitetura pode-se dizer que a cidade não decepciona. Possui belíssimos edifícios de época e uma excelente arquitetura moderna que ganha mais força a cada ano. Um exemplo dessa arquitetura de ponta é o original e lindo museu do Titanic.


         Concebido para enaltecer a importância da construção naval para a cidade em tempos passados, principalmente no início do século vinte, época em que foi lançado ao mar seu mais célebre navio, apresenta uma forma que lembra a proa dos grandes barcos fabricados e suas docas. 
          Com uma audácia singular em suas formas, esse prédio marca a área onde antigamente eram fabricados os transatlânticos da White Star Line e de onde partiu o RMS Titanic, que hoje dá nome ao museu e recheia suas salas de exposições com tudo o que diz respeito à sua magnitude e trágica viagem inaugural.


          Bem legal o efeito conseguido pela terceira dimensão deste projeto. Seu volume é bastante dinâmico e sugere movimento. Com uma base bem menor que a área de cobertura, ele tem no térreo uma planta baixa bem simples e pequena. A medida que vence a altura, ele ganha corpo para seus oito andares superiores. Esse efeito é garantido por generosos balanços. Um a um, os andares vão se expandindo e somando área ao seu interior, totalizando doze mil metros quadrados.
          Em conjunto os quatro grande corpos, sempre com uma aresta bem pronunciada que lhes dá um aspecto triangular (proposital para lembrar a proa da nave) lembram uma hélice. Suas áreas de conexão (do volume quadrado central) são totalmente envidraçadas e funcionam muito bem, tanto de dia como a noite.


Poucos tipos de revestimento: Placas de aço, vidro temperado e lambri de madeira.
Bom gosto nas escolhas e primor no acabamento.


O letreiro, assim como todo o prédio, é muito lindo e muito forte.
A chapa metálica remete ao navio ainda em construção.


Gosto muito do encontro das diversas superfícies com os diferentes tipos de revestimentos.



O espelho d'água é, neste caso, mais que óbvio: necessário!
Em minha opinião é muito pequeno. Muito tímido!
 Imagino o prédio mergulhado em uma piscina rasa gigante...



          Os quatro grandes volumes principais, recebem como revestimento um jogo de quase três mil placas metálicas, com formato assimétrico, idealizadas para quebrar a luz solar e dotar as elevações de um efeito que lembre o reflexo das águas no casco de uma embarcação. Poucas janelas furam essas paredes acinzentadas e ganham vedação de vidro escuro sobre caixilho preto, repetindo o formato prismático das placas a seu redor.



          A estátua de bronze, de autoria do escultor irlandês natural de Dublin, Rowan Fergus Gillespie, batizada de Titânica é uma das poucas em que não imprimiu um ar deprimente e pesado. Será que a cena do filme em que os amantes abrem seus braços ao vento, na proa do Titanic de Cameron, inspirou o artista? (risos)



A forma do corpo central em vidro, também cria arestas graças à rotação sofrida na planta baixa.



O ar industrial sempre presente.


O grande espaço central usa e abusa da altura total do edifício.
 Escadas e passarelas servem de pontes de comunicação entre as quatro asas do prédio.


O interior sempre bem escuro é muito sofisticado e bem dinâmico.
Vários eixos visuais.


Acima: detalhe de uma das paredes no hall central de distribuição.
Abaixo: detalhe do teto na área destinada à fila para as cabines de ingressos.
Chapas de ferro com acabamento rústico.



terça-feira, 1 de setembro de 2015

Riverside Museum de Glasgow

          O novíssimo museu dos transportes de Glasgow, projetado pela premiada arquiteta iraquiana Zaha Hadid, não fugiu à regra dos prédios de altíssima tecnologia e linguagem vanguardista e já detém pelo menos um título importante: foi eleito o Museu Europeu do Ano de 2013, título que abocanhou dois anos depois de inaugurado. 
        Erguido em uma região de recente desenvolvimento e processo de regeneração, junto ao rio Clyde, que corta a cidade, em um sítio antes utilizado por um estaleiro naval, funciona como propulsor do desenvolvimento da margem norte que não detém mais sua atividade industrial original.
         Ainda que relativamente próximo à outros prédios modernos e igualmente inovadores, desponta isolado na paisagem e sem relação nenhuma com o tecido e o maciço urbano da capital escocesa. Implantado em um terreno completamente plano que avança parcialmente sobre a água calma e escura do Clyde, exibe um design completamente novo e diferente de tudo que foi anteriormente construído na região.
                   


A fachada principal voltada para a esplanada de entrada em um ensolarado domingo festivo.


É muito original, o que não significa que seja bonito. Na minha opinião é meio esquisitão!
Fala sério! A fachada não parece um eletrocardiograma? (risos)


O prédio é muito fotogênico e cria contrastes bem bacanas.
Riqueza de ângulos e variedade de pontos de vista: vantagem das formas orgânicas!


O ar industrial, ainda que atual e moderno, se relaciona bem com o tema do museu e com a história da cidade.
A textura e a cor do acabamento metálico faz referência à tradição da engenharia naval.


Côncavos e convexos, retas e curvas... o apelo aerodinâmico é perfeito!
As laterais orgânicas dão uma ideia de como se comporta a cobertura.


Ainda que digam haver um projeto paisagístico, nada de bom acontece com a vegetação.
Não há nenhuma relação de valor entre o edifício e o pouco verde que o cerca.



Acima e abaixo a face envidraçada voltada para o rio Clyde.


Um prédio cinza rodeado de piso cinza! Pobreza nos revestimentos e pouco tratamento externo.




          Essas formas dobradas do teto foram executadas a partir de uma complexa estrutura metálica, muito leve mas, bastante intrincada. Seu enorme vão sem pilares é bem legal; pena que a tralha exposta atrapalhe a visão limpa do grande salão. Queria entrar em um ambiente cujo piso liso pudesse espelhar o detalhe do teto. Seria fantástico.
         Na minha opinião (respeitando toda a capacidade da arquiteta mega premiada) esse museu é um exemplo de como um acervo pode acabar com o ambiente museológico. Os diversos veículos e a forma como foram distribuídos pelo interior desse museu, acabaram por prejudicar a visualização da arquitetura. Parece que o prédio não foi feito para receber o acervo que expõem. Tamanho só... ... não interessa!


            O interior do salão principal do prédio praticamente não apresenta divisórias, fazendo com que a parte das exposições (que consome sete dos onze mil metros quadrados de área construída) seja totalmente integrada. Existem duas partes divididas com paredes que ficam nas laterais. Essas partes são acanhadas e pequenas. Há também uma pequena área no segundo piso de onde pode-se ver o piso inferior e o teto em um ângulo mais interessante.


          Insisto que o mais legal, é mesmo a linha irregular do teto, que forma o desenho do alto das paredes de vidro. Esse detalhe arquitetônico, que parece o único digno de nota, liga por meio do teto plissado as duas fachadas principais, voltadas para o rio e para a esplanada. O salão é totalmente fechado ao exterior exceto pelos dois grandes panos de vidro dessas fachadas principais o que faz o observador levantar os olhos e desfrutar do teto irregular.


A cor e o material empregado não valorizam o detalhe do teto e o projeto luminotécnico é fraco.


O plissado do teto é mais interessante que propriamente bonito e a iluminação é péssima!
O museu na verdade é feioso e o acervo extremamente sem graça: uma decepção!

    
           Tudo foi pintado com a mesma cor: algo entre o amarelo, o bege e o pistache: argh!
         O piso é liso e sem nenhum movimento: nada de degraus, plataformas ou diferenças de cotas entra as alas de exibição; nada de desenhos ou paginação.
          Tanto as paredes como o teto possuem o mesmo tratamento liso e sem graça.
        É certo que tais características são apropriadas para um museu. Principalmente este cujo acervo é de veículos. Mas o tipo de objeto exposto pode ser locado em lugares mais dinâmicos e melhor planejados. Aqui, em se tratando de um equipamento voltado principalmente para as crianças, alguma pitada de lúdico e divertido deveria haver. A arquitetura deve prever isso e não deixar que tal característica seja empregada pela decoração ou posterior montagem dos ambientes. Moral: com uma curadoria  fraca e um o acervo medíocre o que resultou foi um ambiente aborrecedor e sem graça! Disso não resta a menor dúvida.


          A grande maioria dos ítens à mostra são de difícil visualização. Isso seria aceitável caso o museu fosse instalado em um prédio já existente, possivelmente de valor histórico, mas para um projetado exclusivamente para esse fim isso é imperdoável! Mais da metade dos veículos e maquetes foram posicionados de maneira excêntrica. Algumas vezes até de uma forma lúdica, entretanto, a maioria restou prejudicada para se ver e apreciar.


Um pouquinho de movimento na rampa dos carros antigos que sobe grudada na parede...
...e no jogo de luzes coloridas nas prateleiras das motos: tentativas vãs...


Na verdade esse display, com as motos nas prateleiras, mais parece cenário brega de programa de TV

Única coisa realmente interessante e digna de nota é a luminária com as bicicletas
Muito decorativa e bastante original.


A forma como os veículos são mostrados é caótica! Não há cronologia, ordem ou hierarquia.
Muito bagunçado.


          Do pouquíssimo mobiliário existente, esse display interativo é muito interessante: segue as linhas do projeto e lembra as linhas onduladas de sua cobertura. Ainda assim não se pode dizer que é um móvel bonito.


No interior a escolha das cores também é terrível!

          O mais interessante de todo o projeto é mesmo sua cobertura. Linda! O problema é que em uma cidade praticamente toda plana e com poucos edifícios altos, ninguém consegue ver esse detalhe arquitetônico, a menos que seja uma gaivota! Mas a foto serve de consolo! (risos)


          A cobertura revela a divisão interna, que separa o prédio em três fatias e que coincidem com as áreas administrativas, de serviços e de exposição. A primeira cumeeira que tem o formato mais protuberante e projetado, cobre os escritórios e dependências de serviço, enquanto as três seguintes cobrem o salão em forma de raio. A última (acima da foto) e somente na parte reta, paralela à água, detém as instalações da loja, cafeteria, sanitários e áreas de caráter semi-público.


          Outro elemento de destaque é a superfície metálica de revestimento. Só que em um país que chove mais da metade do tempo e que o sol aparece eventualmente, mesmo nos meses de verão, esse brilho exibido pelas fotos é coisa rara!


           A mais que original cobertura, recebe o mesmo acabamento de placas de metal empregado em todas as elevações não envidraçadas do prédio. Sua forma é Indubitavelmente linda e muito original. Pena que não se tem a oportunidade de desfrutar sua vista. É uma lástima que o elemento arquitetônico mais interessante fique escondido do público.