segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Angkor Wat

ANGKOR WAT


                     Angkor é o nome da região do Camboja onde surgiu no século nono  o Império Khmer. Localizada onde hoje está a província de Siem Reap e sua homônima cidade, serviu de sede para o reino fundado por Jayavarman II, que declarou-se independente de Java e acabou por dominar grande parte do sudeste da Ásia. Floresceu, agigantou-se e serviu de sede religiosa e político-administrativa até meados do SEC XIII, quando o rei Yat Gam, expulso por invasores tailandeses, mudou-se para uma área ao sul de Phnom Penh próximo do rio Mekong.

                                                                                             Foto 1

                                                                                                                                      Foto 2

                                  Essas vistas aéreas ilustram com perfeição o esquema do complexo e a vastidão de seus arredores. Os terrenos que os circundam são completamente planos. Na fotografia abaixo o colossal canal que circunda a grande plataforma na qual Angkor Wat está implantado. 

                                                                                                                                     Foto 3

                   Conhecer o principal templo do extinto império Khmer era um desejo de longa data. Na verdade um daqueles maravilhosos sonhos de criança, cultivados pela magia dos livros e por alguma imagem que eventualmente caía em minhas mãos! Por muito anos pensado como algo inatingível, visto que Angkor fica do "outro lado do mundo" e sobretudo pela situação política do Camboja, que após a década de sessenta manteve-se complicada, com seu território fechado aos regimes democrático pela cruel ditadura  do Khmer Vermelho.
               
                       Encontrei no país, exatamente aquilo que povoava o meu imaginário: um território predominantemente plano, alternando imensas áreas alagadas tomadas pelas intermináveis plantações de arroz com densas e luxuriantes florestas. Em meio à essa extraordinária natureza, impressionantes ruínas de antigos templos, redescobertos em tempos recentes, que se tornaram uma grande atração da Indochina e uma sociedade atrasada tecnologicamente, porém, com um acúmulo cultural fora do comum.

                             Extremamente empobrecido pelos acontecimentos do século XX, a maior parte de seus habitantes vive no campo, composta, como no passado, por rizicultores. Suas classes mais instruídas e abastadas foram caladas ou eliminadas pela força devastadora de cunho socialista do Khmer Vermelho, contra a posta, histórica e hierarquizada estrutura social. Finalmente livre dessa violenta e cruel guerrilha, instalada após o término da guerra do Vietnã, o Camboja abriu-se ao mundo e lentamente vai se adequando aos novos padrões do turismo internacional. Ainda carente de intelectuais e pessoas com alta instrução, governado por um grupo corrupto vinculado ao vizinho Vietnã e desprovido de recursos naturais o pais tem muito trabalho a ser feito.
                               
                     Mas certamente as feridas demorarão muito a cicatrizar. Vitimado pela herança nefasta dos tempos de guerra, materializada em minas terrestres, o território vai sendo limpo e  reintegrado aos poucos ao seu gentil e amável povo, que sem sombra de dúvidas continua sendo o seu maior tesouro. Para isso eles dependem da sociedade civil e contam quase que exclusivamente com o trabalho de organizações não governamentais. Algumas celebridades globais tocadas pelo infortúnio da Nação, chamam a atenção do mundo e vez por outra, doações de instituições privadas incrementam o orçamento para esse fim. 

                           O país que por agora conta apenas com suas ruínas para atrair turistas internacionais, tem muito mais a oferecer. Para incrementar o turismo (sua principal fonte de renda), pode desenvolver seu litoral, cujas praias paradisíacas continuam pouco conhecidas. Sua rica biodiversidade, considerada uma das mais importantes do continente asiático é um tesouro a ser explorado. Parte do seu território foi declarada reserva da biosfera e muitas das espécies que correm risco de extinção no continente encontram refúgio dentro de suas fronteiras. 

                      Angkor vem a ser o nome da mais importante cidade do antigo Império Khmer, sendo também sua primeira Capital e seu principal centro religioso. Atingindo em seu auge o impressionante posto de cidade mais populosa do mundo, exerceu vasta influência entre os século IX e XII, irradiando alta qualidade arquitetônica, artística e cultural, bem como se posicionando como um dos maiores polos econômicos de sua época.  Mais de mil templos foram erguidos em sua área, bem como imensos canais facilmente vencidos por extraordinárias pontes, coroando um complexo sistema urbano que mapeava uma área superior a um milhão de metros quadrados. A cidade era tão vasta que ultrapassava a atual área territorial de Paris. Uma aglomeração considerada a maior existente antes da Revolução Industrial, em uma época, em que por exemplo, a Europa vivia sua Baixa Idade Média.
                          
                         Angkor Wat é o nome do maior e mais famoso templo dessa fantástica cidade, dotada com mais de mil outros templos que variavam bastante em escala e importância. Angkor pode significar segundo uns Cidade ou segundo outros Capital. Já Wat não suscita dúvidas e significa Templo

                              Para iniciar, de fato, o passeio pelas imagens do Angkor Wat, utilizo uma maquete eletrônica veiculada pelo Dailly Mirror. Nela vemos o circuito formal de acesso ao templo que inicia em sua ponte monumental (que vence o grande anel de água), cruza a primeira muralha, percorre uma longa e larga passarela suspensa do chão e chega ao portão principal do templo, por onde somente a família real poderia passar. A meio trajeto desse "retão", aparecem as duas primeiras bibliotecas, paralelas e equidistantes entre si.

                                                                                                          Foto 4

Abaixo, apareço fotografado em um dos sete estágios da via interna que leva ao templo.
Nesses pontos existem escadas que descem ao o solo. 


                                     A escolha do sítio para edificar a sede do império deu-se em razão de sua localização (centralizada no mapa do Camboja), apesar de suas características geográficas desfavoráveis. Dessa forma, não foi levado em conta o fato de ser uma gleba de charcos e alagadiços, motivo pelo qual foi necessário fazer um grande aterro, marcando o início de uma das maiores empreitadas civis da época. Não se sabe ao certo se essa foi a razão por trás das altíssimas bases do Wat, ou se ele foi elevado por uma questão puramente estética. As casas ao seu redor eram, tal qual hoje em dia, feitas sobre palafitas, tanto para proteger seus moradores das águas como dos animais perigosos.
                                Muito embora a magnitude dessa obra faraônica possa sugerir um gasto elevado de tempo para sua construção, o templo foi erguido em quarenta anos apenas, empregando uma quantidade enorme de mão-de-obra. A principal matéria prima que é o Arenito, foi em sua maioria trazida da Índia e foram necessárias muitas toneladas.  
                                                                         
                                                                                                          Foto 5

                              O templo marca o ápice do prestígio e do desenvolvimento arquitetônico desse povo, batizado de "Estilo Angkoriano" e de seus complementos artísticos. Coincidente com a fase clássica da arquitetura indiana a qual muito se assemelha, traduziu em pedra toda a interpretação  mitológica e religiosa que balizava sua sociedade. Extremamente forte em simbolismos e riquíssimo em detalhes, foi puramente concebido dentro dos cânones do Hinduísmo antes de ser convertido ao Budismo. Em outras palavras, podemos enquadrar o estilo desta maravilha como sendo a manifestação mais aprimorada e madura da arquitetura, da escultura e da decoração khmer.

Na sequência, a imponente silhueta do templo ao nascer do sol.
 Sua torre central se eleva a 65 metros do solo.


Uma visão extraordinária que anima o visitante 
e o faz lembrar das flores de Lótus.


                                  Nessas duas fotos a mesma visão de um dos quatro portais de acesso ao primeiro recinto (alinhados com os pontos cardeais) a partir do anel intra fosso. Estima-se que mais de vinte mil pessoas viveram dentro da área demarcada pelo fosso artificial ao redor desse primeiro recinto, em casas construídas com madeira e tijolos. A hierarquia era rigidamente aplicada em todos os setores da estrutura social, escalonando não só os usos como as castas, restringindo mais e mais o acesso de pessoas ao centro do complexo. No que vemos hoje em dia, viviam apenas as pessoas mais importantes e próximas do rei e a medida em que a estrutura se elevava e aproximava da torre central seu acesso ficava cada vez mais restrito.


                                O prédio, por ser muito espalhado no terreno, adquiri uma horizontalidade fenomenal; também por isso, seus projetistas tiveram a preocupação de elevá-lo o máximo possível, em busca do equilíbrio estético desejado. Dessa forma foram necessárias enormes escadarias para vencer a diferença entre as cotas dos diversos patamares. Esse recurso repetido em todos os níveis da construção, faz com que a visualização da parte mais importante da fachada, no primeiro plano de visão, fique exatamente na linha dos olhos do observador. Na fachada externa vemos os muros de arrimo, as lajes dos pisos e as plataformas de sustentação que em conjunto formam um gigante cinturão em torno do prédio, interrompido somente pelas  escadarias de acesso aos portais. Sobre tais estruturas uma enorme colunata coberta liga todos os pontos de acesso e eleva ainda mais sua fachada. 


                                                                                                          Foto 6

                           Construído pelo monarca Suryayvarman II para ser seu mausoléu, continua sendo o maior complexo religioso já edificado pelo homem. Sua implantação, sob o desenho simplificado de sua planta baixa, ocupa (nada modestos) oitenta e dois hectares de terra. Seu fosso exterior que simboliza os oceanos do mundo, ultrapassa os cinco quilômetros de perímetro. Concluído no começo do século XII, na época de ouro de seu reinado, cumpria as funções de templo e morada reais. Consagrado ao Deus Vixnu, guardião do Universo, foi projetado sob a tipologia hinduísta reproduzindo a morada dos deuses. Mais tarde lhe foram adicionadas outras galerias que reforçaram sua estrutura e sua marcante geometria. Foi Jayavarman VII quem remodelou o local e implantou o budismo, num momento histórico em que o império atingia seu ápice. 
                  
                              Com formato quadrangular, cuja interpretação filosófica hindu significava a perfeição, o templo foi erguido sobre o plano de vários retângulos concêntricos, com um altíssimo prasat central, rodeado por quatro pátios internos, cada qual com uma estupa em plano mais baixo que sua principal, marcando os quatro cantos do prédio, seguidos por outras estruturas simétricas em um efeito cascata. Dessa forma o templo é formado por três recintos distintos de diferentes alturas com cinco torres erguidas em seu recinto superior lembrando os cumes do mitológico monte Merú.

                            O sistema construtivo baseado no uso de pedra era exclusivo dos templos e edifícios de cunho religioso. Um tipo de argila conhecida por Laterita que endurece, mas mantém suas superfícies porosas, também era muito difundida entre os construtores do império, porém, diferentemente de outros templos, em Angkor Wat ela foi usada de uma forma mais contida.

Abaixo um esquema que mostra a relação do templo
com o a concepção do mitolMonte Merú.
               

                                      Acima o esquema do templo, onde fica fácil entender a metáfora com suas religão e filosofia. Nota-se com facilidade o senso inicial de se parecer com o centro do universo, incorporando a ideia de sua montanha sagrada, central e equidistante. Nesses desenhos também clareia a visão sobre sua relação com a mandala, transfigurada em requintadas proporções entre eixos ortogonais, distribuições equilibradas e volumes correspondentes a partir da subdivisão da figura do quadrado, tendo sempre em mente a relação com os paradigmas dos cânones divinos. O tom marrom no centro do templo grifa exatamente a estupa central e mais alta, entendida como o topo do mundo.

                                                                  Foto 7

                                                       Agora, uma planta baixa esquemática do Wat, mostrando em linha bem fina a mureta de arrimo do aterro onde está implantado o templo (dentro do anel gramado delimitado pelo fosso). Seguido pelas paredes dos três recintos. O terceiro, menor e mais importante dos recintos é subdividido em quatro pátios idênticos. Esses três recintos de alturas crescentes são denominados de Bakan ou templo principal. As estupas foram introduzidas posteriormente quando o templo tornou-se budista. O primeiro recinto é o único que carece de estupas. 

                                  A bela  bandeira cambojana com suas três faixas horizontais, exibindo um desenho simplificado da entrada do Angkor Wat sobre o campo vermelho.

                                                                                          Foto 8

                              Mesmo que tenha se tornado o símbolo do Camboja e sua principal atração turística (aberto diariamente à visitação pública), continua amplamente utilizado por sua sociedade como templo budista. Isso o torna ainda mais interessante e fortalece a aura mística que envolve todo o conjunto. O mais curioso é que sua magnitude e sua condição física, infligem aos não religiosos um comportamento zeloso e extremamente respeitoso, a despeito da enorme quantidade de pessoas, das mais diversas culturas, que o visitam diariamente.


                              Passando pelo primeiro portal com o grande espaço público ao fundo. É bem provável que a altura das casas e demais construções existentes nesse campo não ultrapassassem a linha do alto embasamento, mantendo a visão da colunata livre de obstáculos.

Abaixo o primeiro encontro com uma imagem de Buda.




Monges em um altar budista

                    Angkor Wat nunca ficou desabitado e enquanto toda a cidade ao seu redor sucumbia ao abandono, sendo paulatinamente tomada pela floresta, o templo permaneceu em posse dos monges budistas. Essa é a razão de seu excelente estado de conservação, diferente dos demais templos. 


                          Uma das imagens de Buda que se espalham pelas câmaras de oração. Mesmo despidos de sua decoração e pinturas originais, com pisos irregulares e paredes danificadas pelo tempo, esses ambientes ainda são magníficos e felizmente cumprem com sua função religiosa. É pena que a grande maioria das imagens de Buda que resistiram aos vândalos foram removidas por questão de segurança. Ainda que tenham várias estátuas distribuídas por diversos pontos ao longo dos infindáveis corredores, nada se compara à quantidade original delas.


                                  Acima, uma perspectiva de uma das três galerias de acesso ao templo, localizada na entrada principal do primeiro recinto. A planta baixa dessa porção do prédio reproduz o desenho e a escala do templo central do terceiro recinto. Nos espaços projetados nos quatro quadrantes ao redor da cruz de circulação (que correspondem aos quatro terraços superiores), existiam piscinas abertas ao sol. 


                                   Já dentro do primeiro recinto (ainda gramado) uma visão maravilhosa que mostra a relação entre as diferentes alturas das fachadas que se sobrepõem. A cumeeira da mais baixa fica quase alinhada com o piso da outra mais alta. É o escalonamento do templo. Nessa foto aparace ainda o largo intervalo entre os muros, tendo ao fundo uma das duas bibliotecas internas. Esse espaço marcava o limite de até onde as pessoas podiam ir. O segundo recinto era reservado para os membros da elite e personagens de maior expressão e importância na escala social e por fim o terceiro recinto era reservado apenas ao Rei e a seu Sumo Sacerdote.

                           Abaixo duas imagens da outra biblioteca interior. Ambas estão assentadas sobre um bloco que as eleva e as torna visíveis pelo lado de fora. Equidistantes, esses dois satélites de pedra, servem tanto para orientar quem está do lado de dentro como para marcar hierarquicamente o lado mais importante do templo, pois ficam na face principal do complexo (voltado para a grande alameda que se origina na ponte sobre o canal), ladeando a entrada principal do Bakan.


O efeito da luz poente sobre as paredes só aumenta a beleza do todo.


                          Esses pequenos prédios são os únicos volumes verdadeiramente soltos no interior de Angkor Wat e foram desenhados muito semelhantes às outras duas bibliotecas existentes no grande anel externo (onde vivia a maioria dos seus habitantes e membros da corte) que a certa altura, ladeiam sua grande avenida monumental. No segundo recinto existem mais duas bibliotecas (totalizando seis), que de maneira avessa, parecem fazer parte do corpo do prédio. Isso devido à suas dimensões reduzidas e ao pequeno espaço em que estão erguidas.

                            Não se sabe ao certo a função desses pequenos prédios, que podiam ser santuários ou altares religiosos além de apenas locais para guardar manuscritos. Presentes na maioria dos templos Khmer ficam na sua maioria orientadas no sentido leste/oeste. 

                                                                                                          Foto 6 

Acima o gigantismo do Wat em relação às figuras humanas.
Lindos muros, lindas estupas... Tudo nele é monumental!

Abaixo uma vista dos telhados de pedra lavrada
 com a exuberante mata cambojana ao fundo.


Detalhes das telhas esculpidas em blocos de pedra.



                              Os telhados em cruzeta marcam os quatro grandes portões de acesso (chamados de Gopuras e orientados no sentido dos quatro pontos cardeais), repetidos em dimensões menores nas quatro quinas do primeiro anel edificado. Entre eles e em nível mais baixo as longilíneas coberturas das galerias. Tudo em pedra trabalhada.

                                 Assim como o imenso espaço da grande plataforma retangular entre o templo e o canal, o primeiro recinto também é gramado. 

                           Essa estrutura que chegou até os dias de hoje e que atrai milhões de visitantes, resistiu ao tempo por ter sido feita exclusivamente de pedra. Impressiona tanto pelo requinte como por sua magnitude, exibindo um altíssimo domínio do corte dos pesadíssimos blocos de arenito. Muitas das paredes não possuem massa de assentamento, mantendo-se firme no local somente pelo próprio peso. A estabilidade dessas paredes autoportantes é garantida por seus encaixes que atingem uma perfeição assombrosa.  Infelizmente as peças de alguns telhados executados em madeira e cobertos por telhas de barro ou metal se perderam no tempo.                    
                       
                            Abaixo uma das doze escadarias que ligam o segundo ao terceiro recinto. Essa em especial é a que fica centralizada em um dos eixos de entrada. Muito íngreme e com degraus altíssimos simula a subida ao Monte Merú. Fica novamente centralizada na elevação e conforme o conjunto, acaba em um dos diversos portais do prédio. Ladeando seu arranque duas plataformas com largos beirais em balanço ganham destaque. Essas plataforma se repetem a medida em que se sobe pela escadaria, onde provavelmente eram exibidas esculturas dos vários deuses hindus. 


                            É bom lembrar que contrário ao budismo, que cultuava apenas um mestre religioso na figura de Buda, o hinduísmo praticava o politeísmo, portanto, várias figuras de deuses distintos povoavam os espaços internos. 


Vista da parte externa do terceiro recinto tendo o segundo logo abaixo de si.
As copas das árvores criam um belo tapete vegetal que cerca tudo.
A vista é soberba!


                             Na foto acima, já no topo do prédio, uma das quatro torres em formato piramidal que marcam as quinas do terceiro recinto. Mesmo mais baixas que a outra principal (localizada bem ao centro) são dotadas da mesma e fantástica volumetria, do mesmo  intrincado desenho e da mesma elaborada decoração.


                           Uma pose abaixo do primeiro e mais importante dos cinco Prasats  superiores (torres piramidais) que simbolizam os cumes do Merú. O conjunto dessas cinco torres é o ponto máximo do templo budista, onde a estupa central atinge as maiores proporções.


Um dos quatro terraços do templo superior.
 Tudo é feito em pedra, desde os embasamentos até os telhados. 
Notável a diferença na altura do pátio central com as galerias que o contornam.
São muitos os ângulos de visão...


                                     Abaixo uma seqüência de detalhes decorativos esculpidos na pedra.
O templo é famoso também pelos infindáveis frisos decorados e pelos gigantes painéis de suas galerias. Inscrições e intrincados motivos florais formando vastos "tapetes" aparecem com muita freqüência.


O requinte do traço e maestria na execução aparece nesses grandes campos gravados.


                         Inúmeras figuras em altos-relevos decoram os interiores cobrindo paredes, colunas, nichos, bandeiras e todo o tipo de detalhe arquitetônico. De tão elaboradas, algumas até parecem esculturas levemente apoiadas nas paredes! A grande maioria representa deusas femininas conhecidas como Devatas. As mais belas, entretanto, são as dançarinas chamadas de Apsarás e conhecidas como sendo os espíritos femininos das águas e nuvens.
                           Abaixo fotos de algumas Apsarás. Apesar da perspectiva ainda não ser dominada pelos povos da região, seus entalhes ganhavam dinamismo com o volume acentuado das formas curvas e fartas. O jogo de luz e sombra sobre esses corpos femininos, causa um efeito muito sensual que parece dar vida às figuras. Suas vestes muito ricas e intrincadas, chegaram até nossos tempos e são atualmente reproduzidas por bailarinas típicas do folclore local. 


                             Abaixo, quatro lindos detalhes dos famosos murais em baixos-relevos esculpidos nas galerias. Aqui são retratadas várias cenas de batalhas e acontecimentos históricos importantes e cenas épicas do hinduísmo. Na imagem do guerreiro em sua biga (abaixo/direita) é possível ver um pouco da pintura original. Existem alguns pontos aleatórios onde resquícios da policromia dos painéis servem de estudo para os arqueólogos e restauradores. Poucos pigmentos resistiram aos séculos e mesmo assim em pequeninas áreas. Encontra-se o preto, o vermelho e o dourado.


                         Muitos dos elementos estruturais também são trabalhados de forma artística. Nas quatro fotografias abaixo (da esquerda e acima, em sentido horário), vemos uma viga, um capitel, um pormenor do fuste de uma coluna e uma base de outra coluna.


                                 A vedação das janelas era feita assim: colunetas perfiladas lado a lado para permitir a entrada do vento e barrar a luz solar. Esse sistema era muito eficaz para garantir a privacidade, barrando com eficiência a visão externa enquanto a visão de dentro para fora era garantida.


Desde 1992 Angkor Wat é listado pela UNESCO como patrimônio da humanidade.
                       
                                      Posso, sem nenhum embargo, dizer que essa viagem à Siem Reap, foi uma das que mais gostei. Nada foi desapontador e mesmo depois de ler a respeito e assistir programas gravados para a televisão, ainda vivi muitas surpresas.

                                   Desfrutei de excelentes momentos (mesmo que tenha passado pouco tempo por lá) e sinto que absorvi muita coisa e que voltei mudado; não sei o quanto essa experiência me afetou, mas tenho a certeza de que melhorei de alma e coração. Tornei-me ainda mais capaz de ver as coisas com outros olhos, como por exemplo, com mais benevolência e mais consideração ao próximo.

                                 Passei a não dar tanta importância aos meus credos e repensei muitas de minhas opiniões. Vi que o conceito de certo e errado não é imutável e que o mundo é "plural" e não singular! Regredi no tempo e vivi entre pessoas de uma simplicidade desconcertante, com um credo a prova de tudo e confiantes nos seus semelhantes. Vivi, ao mesmo tempo, em meio ao luxo e ao lixo numa cidade que ainda adota um ritmo mais lento e menos opressor. Deixei de lado a reacionária análise simplificada e simplória das coisas e passei a ver como podemos transitar  entre opostos. 

                            Pude entender de fato, os ciclos recentes de sua história e a alternância do domínio político na região, andando pelos monumentais testemunhos dos reinados do passado, ouvindo os relatos sobre as imperialistas guerras da Indochina e finalmente testemunhando a predatória influência do Vietnã por trás de um governo que conta com um índice enorme de reprovação. Indignei-me com a vasta pobreza que afeta quase a totalidade de seu povo, agravada pelo visível atraso tecnológico e pela pequena perspectiva de avanço social. 

                              Por fim, percebi a real importância em se respeitar as fronteiras culturais, mesmo sendo defensor da supressão das geopolíticas, reaprendendo a valorizar a rica diversidade de hábitos e tradições, com todos seus desdobramentos sócio-afetivos. 

                              Certamente as imagens da cidade de Siem Reap, do nascer do sol por trás do Angkor Wat, da simpatia e do sorriso aberto de todos que por lá vivem, não sairão da minha cabeça.


As fotografias de números, 1,2,3,4,5,6,7 e 8 foram colhidas na internet.




terça-feira, 4 de outubro de 2016

Casa Batlló

CASA BATLLÓ


          Situada no número 43 do agradável Passeio de Grácia (uma das principais avenidas de Barcelona), a Casa Batlló é um marco da arquitetura catalã e um expoente das artes na cultura universal. Grande representante da obra de Antoní Gaudí, soma sua importância histórica e arquitetônica ao originalíssimo conjunto modernista da Catalunha. Tombada pela UNESCO, figura como patrimônio mundial desde 2005, ano em que se juntou à outras obras do arquiteto espanhol como a Casa Milá, o Parque Güell e o Palau Güell, que já detinham o título desde 1984. 
            Encomendada em 1904 pelo industrial do setor têxtil, Josep Batlló i Casanovas, a casa Batlló surgiu da reforma de uma propriedade já existente no local desde 1875 de autoria do arquiteto Emili Sala Cortés.


          A intervenção sentida pela propriedade teve real impacto na sociedade burguesa local e fez da casa uma grande rival para outras célebres residências do mesmo quarteirão. A nova configuração alterou por completo sua fachada que ganhou novos volumes e principalmente altura, passando de cerca de vinte metros para trinta e dois. Assim, um quinto andar de vivendas foi anexado, além do sexto e último piso, cuja função era dotar a casa de mais algumas áreas de apoio e trabalho; nesse último andar, abaixo do terraço, foram também somados alguns aposentos para empregados.

          Sua fachada ganhou movimento e cor numa verdadeira epopéia de formas e cores, onde a pedra esculpida e moldada se relaciona com inacreditáveis revestimentos de vidro e cerâmica. Os primeiros andares dominados pelo arenito liso e monocromático funciona como um belo embasamento para o extraordinário complemento acima. Entre as ondulantes formas que criam suaves volumes sobre o passeio, um rico conjunto de janelas exibe o melhor da carpintaria da época e, como se não bastasse tanta excelência dos artesãos locais, nelas foram colocados belíssimos vitrais. Nos andares superiores foram criados belos e originais balcões vazados, reinterpretando de forma inesperada a tradicional balaustradampara onde se abrem duplas portas com venezianas.

          Na parte superior (entendida a partir do piso onde não existem mais os balcões) um recuo na porção esquerda da fachada mostra a preocupação com o volume da casa ao lado. Dele parte uma pequena torre encimada por uma cúpula "cebola" que serve de base para uma cruz de quatro pontas. Sobre esse andar (de serviços), um alto telhado elevou ainda mais o ponto de cumeeira no centro do edifício e acentuou ainda mais a forma triangular de seu topo. 

          Seu telhado forrado por telhas com aspecto reptiliano, brincam com o imaginário e exibem cores e brilhos camaleônicos que fazem parecer que um dragão está deitado sobre o prédio e olhando para baixo. As peças cerâmicas que forram a linha da cumeeira, alternam formas gordas e magras sugerindo um dorso escamoso. Muito explorado pela curadoria atual, essa imagem do animal mitológico ganha vida em projeções de filmes feitas sobre a fachada em dias especiais ou de festa, que podem ser vistos também, durante a visita ao imóvel em uma pequena maquete de gesso.


O desenho orgânico do conjunto, completamente diferente do que havia antes, faz da casa Batlló um verdadeiro deleite aos olhos de quem curte arquitetura. 


          A fachada foi forrada com peças de terracota esmaltada e vidro e ganhou essa aparência que lembra a pintura  Nenúfares de Monet, com todos os seus verdes e roxos. A casa ganhou esse ar aquoso que não para por aí e invade seus interiores seguindo a inspiração do mundo das águas e da literatura de Júlio Verne.

          A decoração é muito forte em toda a concepção da casa, tanto em seu exterior como em seu interior, mas nem por isso a estrutura e a arquitetura são postas de lado, ou seja, a decoração surge junto e passa a ser um elemento arquitetônico e escultórico.


A iluminação artificial deixa a casa ainda mais bela.
Abaixo, uma vista aproximada dos balcões que lembram máscaras ou caveiras...


          Abaixo a grande janela da sala principal do apartamento da família Batlló. A maior de todas as aberturas da fachada, assume seu papel de destaque na clara frontaria de arenito (que se projeta da parede original) e estabelece a hierarquia na composição estética e funcional no projeto de Gaudí. Centralizada na máscara ondulante (que forra os dois primeiros andares, se eleva em ambos os cantos do terceiro), tem um formato que para alguns lembra um morcego de asas abertas. Seus delgados pilares que dividem o grande vão em cinco partes (corpo e duas asas do alado mamífero) parecem partes de esqueletos, como ossos de membros, e são , por esse motivo, responsáveis pelo apelido que a casa ganhou de:
"a casa dos ossos ".


O janelão central durante a noite e dia!
Linda tanto translúcida como espelhada!


          O interessante é que os pilares ficam soltos das janelas, permitindo uma única peça sem divisões colocada por trás da estrutura de sustentação das vigas superiores. Lindas as duas "bay windows" dos cantos do terceiro piso que ajudam a fazer a transição entre a base e o corpo principal da fachada.


          As sacadinhas isoladas, que lembram máscaras venezianas, garantiram ao prédio mais um apelido:
" a casa das máscaras".


          No interior da casa, a escada do acesso principal é o primeiro elemento que causa surpresa e admiração! Seu formato orgânico  é literal! Os degraus de madeira se expandem na linha abaixo do corrimão onde, ao se retorcerem e se encaixarem, formam um desenho que remete à uma espécie de coluna vertebral. Essa seqüência de vértebras (bem definidas) dá acabamento ao maciço que faz a curva e se eleva: "o dragão está presente" e sua ossatura parece confundir-se com a estrutura da casa que se abre acima. No arranque o corrimão ganha uma coluna de ferro retorcido com esfera de vidro, cujo o par, dá também acabamento em sua outra extremidade, no vestíbulo da casa da família, localizado no piso superior. Essa peça metálica nem sempre foi clara como está agora. Eu particularmente prefiro como tinha visto nos livros em cor bem escura... O rodapé desse ambiente é todo ondulado diferenciando-se do parquete com desenho que respeita o corte retangular de suas peças.


O incrível desenho orgânico do degrau que exibe perfeição. 
Impactante e incrivelmente lindo! 
Se Deus está nos detalhes, o que dizer de Gaudí? 


Paredes e madeiras ondulantes... 
...atenção ao detalhe da madeira curva de cada degrau...
Alusões à seres mitológicos convivem com formas que remetem à ossadas de animais pré-históricos


          Acima, o final do corrimão da escada, coroado por quase um "cetro": uma alegoria corajosa que exibe o gosto apurado de Gaudí pelas peças de serralheria. Infelizmente não encontramos na casa Batlló aquelas maravilhosas e tão elaboradas esculturas, portas e gradis de ferro que vemos em outras obras do arquiteto.

Abaixo duas belas claraboias que clareiam a circulação vertical e que fazem conjunto com a luminária embutida no corpo da escada que ilumina o fundo do hall do andar térreo.


          Inteiramente revestido com cerâmicas refratárias o "casulo" da lareira (aberto para o vestíbulo de chegada do piso principal), converteu-se em um dos mais emblemáticos elementos arquitetônicos da casa. Totalmente lúdico e fantasioso, invade um arco com formato de um cogumelo que remete ao imaginário de uma garganta. A própria chaminé lembra as entranhas e vísceras do onipresente e gigante animal que será reforçado em vários outros pontos do interior da casa. O aspecto metalizado da cerâmica é bem representativo da época em que a casa foi reformada por Antoni Gaudí, utilizada em diversas obras ao redor de Barcelona, sempre em detalhes decorativos, o que faz entender, se tratar de algo caro e sofisticado. Essa palheta de cores que transita entre bronzeados e dourados eleva ainda mais a aura de romantismo, sem, contudo, nublar a sensação de modernidade e vanguardismo. 


          Como tantos outros detalhes e elementos estruturais ou decorativos, o curioso formato do arco da lareira, que pode lembrar um cogumelo ou uma água marinha, transita entre várias Interpretações que aliam os mundos do mar e da terra nos devaneios artísticos do arquiteto. Suas orgânicas alegorias evocam tanto elementos da fauna e flora quanto representações de mundos reais ou imaginários.   


         Nas paredes de tonalidade terracota, uma impressionante pintura que tenta iludir o observador e fazer crer que se trata de um revestimento cerâmico. O efeito craquelado se repete pelos tetos e outros ambientes. Atenção à pequenina clarabóia sobre o arco da porta: ponto focal de fortíssimo impacto. A arquitetura interior dessa casa oferece uma experiência sensorial extraordinária e abusa das linhas orgânicas, que apesar de dominarem completamente os espaços internos, são tão sutis e fluídas que suavizam a simetria e fragmentam as arestas da arquitetura original. 


Em suma:
linhas orgânicas por todos os lados no que fora, anteriormente, mais um tradicional prédio quadrado. 
Atenção ao alto rodapé ondulado.




          A porta divisória entre os ambientes sociais desse apartamento segue intacta e é a maior de todo o imóvel. Fantástica, mostra o quão complexa era a obra do arquiteto. A madeira em cor de mel, muito bem talhada e tratada, cria um contraste lindo com as cores dos vidros. Seus encaixes são perfeitos e seu alto grau de elaboração faz dela uma joia da carpintaria.


Ainda hoje, o formato ondulado dessas portas causa surpresa devido à criatividade e coragem do projeto sem falar da técnica e da perícia na execução.  


Tirem esse lustre de cristal daí!!!!! Hum... contraponto!





          O tema marinho parece se repetir no teto, que recebe um tratamento com formas helicoidais e concêntricas que lembram um desenho formado na areia por um redemoinho. A criatividade subverte a lógica e põe o observador de ponta-cabeça!  Mergulha-se no fabuloso mundo do arquiteto que altera os conceitos e prova que nada mais será como antes. Uma casa pode não ser mais uma simples casa!  Pode ser uma fonte inesgotável de ilusões!


O tom areia com aspecto texturizado e rústico do teto, encontra o devido contraste no incandescente plafon de metal e vidro. 


          Os vitrôs, com estrutura muito delgada, ganham uma suave palheta de cores marinhas, em referência aos mundos aquáticos da obra de Júlio Verne (1828-1905). O próprio formato de suas estruturas (que formam desenhos de bolhas) reforçam essa ideia, levada a cabo pelos relevos obtidos nos vidros. Gaudí entendia do que propunha porque havia sido aprendiz de ferreiro antes de entrar para a Escola de Arquitetura de Barcelona, e conseguia por isso, extrair dessa arte o máximo em efeitos. 


          Na janela da fotografia anterior, uma vista sobre o Passeio de Gràcia. A preciosa peça de carpintaria da esquadria tripartida, sustenta uma bandeira de vidros e ferro forjado com desenho que complementa o revestimento externo da parede da fachada. Um pilar escultórico transpassa a vista e permanece enquadrado pela moldura de madeira, enquanto sustenta outro janelão (do terceiro andar) e por fim uma sacadinha de pedra no quarto piso. 

          Do lado de dentro da incrível e inconfundível janela do salão principal: é possível desfrutar tanto da bela vista da rua como da inacreditável peça de madeira ondulada. O exímio arquiteto contava com exímios artesãos. Esse conjunto de portas e janelas ondulantes, como as forças da natureza que as inspiraram, são de impressionar até mesmo os mais céticos.


          A estrutura de pedra ondulada (parece redundância, mas é impossível não repetir tais adjetivos) aplicada na fachada da antiga casa da família Batlló, cria um volume interessante e descola alguns pilares das paredes. Esses mesmos pilares que sustentam quatro das novas sacadas projetadas na reforma, são vistos tanto de dentro da casa como de fora. Trabalhados primorosamente a partir da fértil imaginação de seu autor respondem por um efeito plástico de grande magnitude. 

          Outro elemento arquitetônico bastante incomum é o par de colunas vistas a seguir, que fica localizada bem de fronte à porta de acesso ao pátio dos fundos. Muito curiosa essa proposta do arquiteto que gostava de colocar colunas em frente à vãos para desviar a circulação e potencializar a beleza da estrutura, repete a filosofia da estrutura solta da fachada principal. Esse gosto de Gaudí por colocando obstáculos nos eixos visuais é no mínimo inusitado. Fez isso, a despeito dos mais conservadores, com maestria aqui e em outra célebre obra: o Palácio Güell. Mais uma vez rompendo com paradigmas e criando uma arquitetura individualista, o catalão não fez escola nesse quesito. Fator que torna sua opção por colocar uma, duas ou mais colunas na frente de  janelas, arcos e passagens, muito característica de sua obra.



Assim como nos pilares ao rés do chão na fachada, esses lembram patas de elefantes...


Não sei se gosto desses pilares...


          A residência da família no piso principal é a única dotada desse terraço nos fundos (que cobre a porção de trás do andar comercial inferior). Dele podemos ver a fachada voltada para o interior do quarteirão que infelizmente não exibe a beleza da fachada principal. Nessa elevação as formas da casa original estão mais presentes. 


No piso uma passarela estampada que orienta a circulação rumo à porta de entrada da sala de jantar. 

         


          Esse fosso foi ampliado durante a reforma do prédio feita entre 1904 e 1906. Com a intervenção de Gaudí ganhou esse maravilhoso revestimento cerâmico que cobre três de suas paredes e exibe um conjunto de azulejos com efeito de confete em tons de azul. Nele foram posicionadas várias peças em relevo que enriquecem o espaço dando textura e aumentando as reflexões da luz. Esse recurso de dar rugosidade e saliência para as superfícies esmaltadas é muito eficaz  para criar efeitos óticos. Dessa forma essas paredes ganham movimento e um toque de brilho.

          Um detalhe interessante das aberturas voltadas para esse fosso é que ficam menores a medida em que sobem e chegam mais próximas da claridade. Quatro folhas na mais baixa e apenas duas na mais alta. Esse estreitamento das janelas fortalece o efeito da perspectiva e aumenta a sensação de altura.


Fundo clarinho: andares baixos.

          Outro detalhe interessante está na cor das paredes que vai, em degradê, escurecendo aos poucos em direção ao topo, iniciando mais clara no fundo (andares inferiores) e ficando mais escura perto da cobertura de vidro. Dessa forma, sendo maior sua absorção no topo e sua reflexão na base, a claridade que penetra nesse espaço é tratada de forma equilibrada. 


Fosso com claraboia.
Gosto do contraste com a madeira natural.


Belos azulejos em relevo.
 Os losangos ajudam a aumentar a sensação de verticalidade. 


          A janela acima lembra uma caveira e possui uma parte que funciona como entrada de ar, no que seria ao meu ver sua mandíbula. Muito interessante em sua utilização e bastante curiosa em seu formato chama logo a atenção. Importante ventilação cruzada a partir desse fosso para ajustar a temperatura interna da unidade habitacional. Abaixo a porta de um dos apartamentos de locação (dois por andar) emoldurada por lindas peças de cerâmica em tons de azul fazendo conjunto com o revestimento do fosso de luz.


Azulejos em azul cobalto bem perto da claraboia e na moldura da porta.


O topo da escadaria central com o arco ogival que divide as duas porções do vão central.


Detalhes da porta do elevador com acesso no patamar da escada:
1- Vidro com textura para promover a discrição e privacidade sem perder a luminosidade;
2- Delgadas peças de madeira torneada para garantir segurança;
3- Estrutura metálica com pintura clara para criar conjunto.


Mármore branco para dar leveza, claridade e higiene.
Dessa forma todo o destaque recai sobre o azulado fosso.


Lindo o corrimão da escada



          Os andares superiores foram anexados ao prédio original e elevaram a cota da altura em dois pisos mais o vão do telhado. Neles aparecem formas mais soltas e fluidas como esses ogivais arcos estruturais que inclinam as laterais do corredor. Enquanto nos andares inferiores as reformas ondularam somente as paredes, nos superiores tais linhas orgânicas ganharam também os tetos. A arquitetura passa a ser completamente autoral. 


Respiros nas paredes como se fossem branquias... 


Nesses aposentos de serviços o branco é dominante!


A casa é dotada de um terraço escondido pela alta crista do telhado da fachada.


Algumas chaminés com mosaicos policromados.

          Abaixo, eu apareço apoiado no telhado da casa, do lado em que é revestido pelos cacos de cerâmica cortados e assentados de forma irregular. Em conjunto criam esse desenho em degradê sob a técnica de Trencadís cujo significado é "quebrado". Esse tipo de mosaico conhecido em catalão por Trencat é uma constante na obra de Gaudí.



Acima e abaixo o dorso do dragão.
Do lado da fachada principal voltada para o Passeio de Grácia as telhas parecem escamas.



Abaixo duas imagens colhidas no site tauromaquia.com


Acima, a fachada da casa como era antes da reforma.


          Um corte transversal.

            Nesse desenho fica bem explicado a configuração do todo, inclusive do topo do edifício com seu terraço. Também fica fácil perceber  a "crista" do telhado que torna mais alta a fachada voltada para o Passeio de Grácia que está à direta. Os grandes arcos ogivais marcam os novos andares criados por Gaudí. A longa estrutura da clarabóia cobre os dois fossos de luz, separados pela circulação semi-pública vertical onde estão locados o elevador e a escadaria de acesso aos andares de vivendas. 
          Na extrema esquerda aparece o terraço dos fundos que pertence ao apartamento principal da família proprietária. Nesse andar alguns dos elementos internos aparecem mais detalhados (como as portas internas e a lareira) e abaixo desse andar fica a área das lojas que marca o nível da rua. No embasamento temos o porão alto. A grande escada que aparece não é a que serve ao apartamento dos Batlló (das fotografias do início do post) e sim a que dá acesso às demais unidades autônomas.