quarta-feira, 27 de julho de 2011

Casa da Cascata


A famosa Fallingwater.
 Projeto de Frank Lloyd Wright, no Estado da Pennsylvania nos Estados Unidos da América.



               Distante cerca de uma hora da cidade de Pittsburgh a Casa da Cascata, antiga residência de veraneio de Edgar Kaufmann, fica isolada em meio a um bosque perto da localidade de Ohiopyle, região muito procurada para caminhar, pedalar, acampar e pescar. 
               A casa é a maior atração da região e uma das obras de arquitetura mais famosas e fotografadas do mundo. O entorno da Fallingwater muda radicalmente nas quatro estações proporcionando à casa uma moldura completamente diferente em várias ocasiões do ano, chegando a congelar no inverno ou assumindo os mais variados tons de amarelo, vermelho e bronze das folhas das árvores no outono. Difícil avaliar qual época é a mais bonita. 


               O primeiro pontilhão leva ao acesso principal. Dele, avista-se o detalhe mais interessante de toda a estrutura: a escada vista ao fundo que vai da sala de estar direto para a piscina natural, formada no rio, imediatamente abaixo da estrutura em balanço da casa e entre duas das três quedas. É notável a maneira como a casa se relaciona com a natureza ao seu redor. Os terraços pairam sobre o fluxo de água e as copas das árvores estão por todos os lados: acima, abaixo, à frente, por todos os lados!



               Logo na entrada principal uma fonte recebe e dá as boas vindas ao visitante. Belo recurso que tira partido do tema da casa. Um simples fio de água que brota da parede revestida com pedras retiradas da propriedade mostra que o simples e descomplicado se transforma em algo sofisticado. A casa alterna paredes lisas pintadas em um tom de bege amarelado com outras revestidas ou construídas com as pedras do terreno. A integração da arquitetura com o local é das maiores que já tive a oportunidade de ver. Todos os pisos da casa são com a mesma pedra. Arquitetura orgânica em sua melhor forma.


               Uma vista interna da casa orientada para o rio. Aqui as janelas abrem para fora e as telas (não originais) abrem para dentro. Esse ângulo se repete nos três andares principais da casa. É fácil notar a preocupação do arquiteto em coincidir a laje externa em balanço com as linhas da janela.


               A estrutura da casa não fica totalmente encostada na rocha  e optou-se por não pavimentar seus acessos, mantendo assim a natureza bem preservada. O paisagismo quase que inexistente fica a cargo do magnífico sítio em que a casa está localizada. A cor amarelada das superfícies rebocadas tenta imitar o tom das pedras e busca o dourado das folhas do outono: diz a biografia.


               A escolha do tom vermelho para pintar todas as aberturas não foi por acaso nem mesmo opção do cliente. Vermelho era a cor do escritório do arquiteto e aqui funciona como sua assinatura. A casa surpreende a cada olhar. A projeção da laje da foto acima feito uma asa é fantástica! A casa parece mesmo pairar no ar.



               O acesso à água é feito por uma escada externa e por essa que liga diretamente o living ao rio. Muito legal o fechamento em vidro escamoteável da escada suspensa e a vista que se tem da piscina natural desde a área de convívio interno. Kaufmann desejava uma casa com vista da cascata, mas Wright locou-a sobre a cascata! "Quero que você viva com a queda d'água, não apenas olhe para ela, e que ela se torne uma parte integrante de suas vidas", argumentou o arquiteto.



               Um detalhe muito curioso da estrutura é o pé-direito muito, muito baixo. Uma inovação para a época e até hoje muito comentada. Em certos locais é possível tocar o teto. Esse detalhe arquitetônico, que a princípio parece estranho, potencializa os efeitos naturais e ajuda no conforto térmico interno. Nos dias quentes de verão a circulação de ar cruzada refresca os ambientes e nos dias frios o calor da casa é mantido com mais eficiência. Outro fator de destaque é que com os tetos mais baixos a reverberação do som que vem da cascata aumenta bastante, nos relembrando a todo momento, onde a casa está. É a Casa da Cascata! Oras!



               O mobiliário inteiro desenhado no escritório do arquiteto e feito sob medida para todos os aposentos da residência foi executado somente em Nogueira. Cada centímetro da casa é estudado. Nada é ao acaso. Cada peça exposta teve seu lugar determinado por Wright. Parte do acervo de peças orientais do proprietário ainda está na casa, assim como, alguns quadros de Rivera e uma sacra e medieval estátua de madeira policromada. Na fotografia acima vemos o grande sofá de bancada que ocupa todo o vão inferior da janela. As mesas de centro componíveis e os pufes, com ares de seriado espacial dos anos quarenta, contrastam com o tapete de linhas orientais. Os grandes panos de vidro integram a paisagem numa casa pobre em paredes lisas, portanto, quadros são raros!
               "Eliminem o decorador" era o que Frank dizia. Ele e sua equipe projetavam todos (sem exceção) os elementos de decoração, funcionais ou não, dos interiores de suas obras. Gostava de ter total domínio sobre a arquitetura, mobília, decoração e obras de arte.



               Janelas panorâmicas e mobiliário totalmente incorporado às paredes: esses móveis de linhas retas e acabamentos lisos, feitos sob medida, custaram uma verdadeira fortuna, mas não agradaram totalmente à Sra. Kaufmann.


Uma das várias e famosíssimas peças de mobiliário desenhadas por Frank Lloyd Wright.


               Definitivamente é uma moradia para adultos! Imagine crianças e animais de estimação em uma casa onde o guarda-corpo do terceiro pavimento não passa de 60 cm! O lado bom é que a casa não barra a visão e oferta uma sensação enorme de liberdade. Nesse aspecto a Fallingwater é perfeita.


               A linha arredondada no guarda-corpo, que protege a escada de acesso à cascata, cria um contraponto muito lindo com as linhas retas do caixilho. Atenção para a pérgula fechada com vidros.
               Não há diferença entre a cota do piso do terraço com a cota do piso da sala: interior e exterior, totalmente conectados como se fossem um único ambiente. Tal integração é muito bonita na teoria, mas será que funciona na prática? O piso de pedras irregulares é lindo e o tom da pedra é muito neutro. A característica que mais me marcou foi a unidade dos materiais.
               Pouquíssima variação nos acabamentos: 1) um único tipo de pedra nas paredes e pisos com diferença de corte e assentamento apenas; 2) uma única cor de tinta, tanto no interior como no exterior; 3) paredes e tetos com o mesmo acabamento; 4) a mesma madeira nos móveis e esquadrias internas; 5) o mesmo vermelho em todas as peças metálicas; 6) banheiros idênticos nos acabamentos e mobiliário. Com essa unidade nos materiais e texturas o projeto abre espaço para uma infinidade de soluções e formas arquitetônicas. A casa não é nada monótona, mas exala um senso de unidade que abala a lógica e por vezes nos faz pensar que possa ter brotado do chão. Com esse sentimento faz-se verdadeira a premissa de que Wright produziu uma obra harmônica, com a natureza que a envolve, promovendo a máxima integração entre exterior e interior.



                Os largos beirais, os telhados planos, as janelas que se dobram e mudam de rumo, a enorme sentinela vertical que incorpora chaminés e pilares! A casa é magnífica! A proposta revolucionária para uma casa de montanha (ou qualquer outro lugar em que fosse implantada) que alia o concreto quase desnudo à rusticidade crespa das pedras, com aberturas que rasgam a horizontal e conectam a vertical num jogo de faixas, luz e sombras, promove um avanço estético e de costumes sem precedentes na América. A arquitetura jamais seria a mesma!


               As longas vigas e os planos em cantilever testaram o cálculo civil ao limite das possibilidades técnicas da época. A um passo da ruína, sofrem bastante com os efeitos negativos de tanta proeza, somados aos fatores impostos pela natureza, totalmente ignorados pela pretensiosa coragem do arquiteto. Como exemplo, temos as belíssimas linhas horizontais das  lajes planas que se convertem, no alto inverno, em uma área de acúmulo de neve, que pesa e não escorre como deveria, resultando em vazamentos constantes e fadiga da estrutura. Mas as fotos da casa toda branquinha são lindas! (risos)




                Outro bonito ângulo da casa. Uma das características mais marcantes da arquitetura de Frank Lloyd Wright (1869-1959) era a ênfase na função e no uso, naquilo que ela chamava de "máquina de morar". Em sua opinião todos os elementos arquitetônicos deveriam ser severamente determinados pela função, desprezando solenemente toda e qualquer decoração que pudesse mascarar a beleza da forma e da técnica. Para o crítico de arquitetura e escritor Nikolaus Pesvner, Wright se converteu no mais importante arquiteto americano da primeira metade do século vinte. Visitando a casa não temos como discordar!

Por tudo isso: Adorei!

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